Viva a Vida !
terça-feira, 25 de setembro de 2007
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
2 Poemas de Gilberto de Oliveira, que foi meu amigo e prisioneiro no Campo da Morte Lenta - Tarrafal
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Vinte e seis dias já, há quasi já um mez.
Que vim para este templo de pensamento.
E o tempo, oh! ... maldito passa lento;
Olhando p'ra mim, com super altivez.
.
Mas não julgues que com isto burguesia
Meu espírito fica amedrontado.
Pois me sinto 'inda mais revoltado.
Por desvendar aqui , a tua hipocrisia..
É com a prisão burguês, que te defendes?
Do operário que quer a liberdade!?
Sim, é isso certamente, o que pretendes.
.
Mas vêde bem, oh burgueza sociedade
O povo já sabe que por base só tendes
A infâmia, a fraude, a falcidade.
,
1933.08.03
Lisboa (1)
.
À Burguesia
.
Oh vil burguesia, imérita velha traiçoeira.
Com teus vestidos, de rapariga, jovem atraente.
Consegues iludir do povo, ainda alguma gente.
Que inconsciente vai caindo na tua ratoeira.
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E como qual réptil, na sombra vais rastejando.
Sem cantar vitória, pois te dentes já moribunda.
Sim é agora o teu fim, oh sociedade imunda.
É a invencível morte, que p'ra ti vai avançando.
.
E representada, a tua morte é, p'lo fascismo,
Consequência única, do fim do teu império..
E então darás lugar, eternamente, ao Leninismo.
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A esse ideal puro e justo sem vitupério;
Que edificará na terra, p'ra sempre o Socialismo;
Que a humanidade unirá, num amor eterno.
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1933.08.04 - Lisboa
.
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Cessem teus males, oh sociedade viciosa!
Que só da fraude vives, do engano e da maldade.
Tuas armas são: uma a taberna perigosa;
A igreja, antro d'hipocrisia e falsidade;
.
E a outra é o prostíbulo, casa venenosa.
Só com isto te sustentas, maldita sociedade.
Cantando o divulgarei para toda a gente.
Se para isso me ajudar o povo consciente.
.
1933.08.06 - Lisboa
.
_______________
1 - Este poema e os dois seguintes foram escritos nas paredes da prisão de Belém.
domingo, 23 de setembro de 2007
Hoje o dia nasceu

* Mana Kalinka
.
Hoje o dia nasceu
negro e amanheceu
sombras me invadem
a alma
os olhos inundam-se
lágrimas rolam
a tristeza acompanha-me
porque será?
questiono-me
mas as respostas faltam
quero tudo esquecer
voltar-me para o lado
e adormecer...
.
Colocado por Victor Nogueira @ Segunda-feira, Julho 09, 2007 em Kant_O_XimPi
Venho de mansinho

* Mana Kalinka
.
Venho de mansinho
lembrando a minha meninice
ver as gaivotas, na Nazaré
As da minha infância
também eram belas e meigas
em terras de África, pois é.
Fico deslumbrada com
os seus bailados esvoaçantes
Emitindo gritos sonantes.
Mas, tu ignoras-me
deixo-te recados,
miminhos, como quem brinca
e mesmo assim,
não me visitas, no kalinka
A tristeza invade-me
tropeço nas rochas,
oiço os seus gritos de socorro
mas,
ninguém dá conta da minha queda.
Ali permaneço
horas sem fim
dorida, estremeço
quem olha por mim?
.
.
sábado, 22 de setembro de 2007
Eterno
Silencio,
por favor silencio.
Voy a gritar que la amo.
Silencio,
por favor silencio.
Van a gritar que me aman.
Oh, que espera
y que silencio eterno.
Silencio
Yo soy ese que te ama.
Yo soy esa que…silencio,
no lo digas,
mi corazón escucha.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Vi-te

quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Escrito a Quente
Encontrei esta entrada no blog da Belisa e vim ter aqui. E fui lendo página a página os textos que me comoveram deveras. Como dizem os meus filhos, lá está o pai com o brilhozinho nos olhos.Victor Nogueira
Da Travessa do Ferreira ...

ORA TOMA...
Lisboa «deambulada»
pelo Victor Nogueira
Antunes Ferreira
O Victor Nogueira é impagável – e imparável. No seu blogue Ao (es)correr da pena (que já recomendei, recomendo e recomendarei) vai, desde há uns tempinhos deambulando por Lisboa. É obra, minhas Senhoras e meus Senhores. O nosso homem não pára. Tudo o que encontra nesta capital que é nossa, vá de registar. Constrói, assim, uma cidade de muitas colinas e muitas obras de arte e outras, até nas artérias.
Este apontamento é uma homenagem a Lisboa, mas também ao Victor que no-la traz de forma airosa, interessada e interessante. Recria-a perante os nossos olhos, o que - pelo menos para mim, alfacinha e orgulhoso de o ser – é cometimento para longa duração porque longo é o caminho a percorrer, sedimentado pelo já percorrido. Vai em frente, Victor. Não te alerto para eventuais distracções – porque tu não te distrais. Vai, Victor, vai. Continua.
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Poemas do meu Bisavô (2)
.
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Adeus (imitação)
.
Adeus Pátria, adeus família
Adeus serra onde nasci;
Adeus colinas e vales
Onde feliz eu frui.
.
Adeus regato suavíssimo
Que te despenhas do monte,
Adeus água cristalina
De tão poética fonte.
.
Adeus sol que t’escondes
No teu tálamo de verdura,
Adeus tudo que é campestre
Adeus tudo que é ventura.
.
Adeus outeiros que além
Sustêm formosa ponte;
Adeus crepúsculo da tarde
Que te retratas no monte.
.
Adeus noites tão belas
Noites de grato luar;
Adeus milhares d’estrelas
Alvo do meu louco olhar.
.
Adeus minha guitarra
Adeus p’ra sempre folgar;
Adeus danças campestres
Adeus meu belo cantar.
.
Adeus douradas madeixas
De milhares de formosas!
Adeus doces enleios
Adeus nacaradas rosas.
.
Adeus minha mãe querida
Adeus oh! grata visão!
Adeus tu que dás a vida
Ao meu triste coração.
.
Óbidos
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Ainda a Poesia...

UM HINO À CIDADE
Ai esse corpo cidade que a cidade vai abrindo
Esse corpo de ansiedade nas vidas que vão florindo...
Ai esse corpo violado que se esgueira pelas vielas
Esse corpo mal tratado nos corpos deles e delas...
Ai esse corpo almofada sem atavios riqueza
Corpo de pedra lavrada, corpo de vida burguesa...
Ai esse corpo cidade com traineiras na lonjura
Sempre manhã, sempre tarde, nos braços da noite escura...
Ai esse corpo doçura no amor de quem lhe quer
Esse corpo dedilhado, como guitarra-mulher...
Ai esse corpo de espanto desta cidade brumosa
Todo riso, todo pranto, todo amante ansiosa...
Ai cidade marginal do desespero dos dias
Cidade nobre e leal de muitas democracias...
Ai encanto de pintores, de poetas, doutros mais
De jardins cheios de cores, de tertulias ancestrais
És cidade toda Povo de manjerico na mão
E és Porto de igualdade em Noite de S.João!...
MEU PORTO
Quando a noite chega
Com seu manto negro
E tu emerges do rio
Liquidamente coroada de luzes
Meu coração acelera o compasso
E meus olhos, em êxtase
Fundem-se em ti...
Pairo
Gaivota em voo tardio
Sem norte e sem rota
Inebriada de luz
E poiso na areia...
Esqueço o ninho, a vida
E embalando o cansaço
Adormeço
Na espera dos primeiros alvores
Dum dia de verão!...
DESPINDO A ALMA
Eu dispo a minha alma
À tua frente
Num jeito despudor
De entrega feito
Que despir a minha alma
É o meu jeito
De mostrar e de pedir
Amor!
E dispo a alma
A alma somente
O corpo, é só um fato
Que vestimos
E quando amamos muito
Desistimos
De pensar nessa fato
Que esquecemos...
Apenas alma e lua
São divinas
Qualidades na mulher plena
E por isso
É que vale a pena
Despir a alma
E deixá-la nua
Aos raios de luar
E de verbena
E ao toque doutra alma
Como a tua!...
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
«Convívio das Quadras»

Sendo assim e se quiserem podem enviar de 1 a 3 quadras, neste caso independentes ou interligadas. Isto não é um concurso, não há prémios nem classificações. Mas há regras: a(s) quadra(s) têm de ser escritas em português ou castelhano, não necessariamente escritas para agora, de autoria do remetente, que se deve identificar, dando um mail válido ou identificação do seu blog ou site, e, embora a temática seja livre, esta não pode ser racista, xenófoba, sexista ou ofensiva.
Se quiserem participar deixem as vossas contribuições no comentário do último post acima referido ou por mail, com a indicação «Convívio das Quadras», até 30 de Setembro do corrente.
Um abraço
Victor Nogueira
domingo, 16 de setembro de 2007
A Modinha das Quadras
.
.
Ora vamos lá :)
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Não é pra todo o que quer...
mas poderá vir a ser
Acho que quem não souber
poderá vir a saber!
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Começou por brincadeira
esta coisa de rimar
Mesmo que eu não queira
só agora assim sei falar!
.
Estou a ficar preocupada
Com esta minha mania
Não posso dizer nada
Sem que toda a gente se ria!
.
Está mesmo a acontecer
mesmo em tudo o que digo
O que é que eu hei-de fazer?
Para não gozarem comigo?
.
Não sendo muito letrada
não são muitas as palavras
Mas fico toda encantada
quando me saem estas quadras!
.
16 de Setembro de 2007 19:53
.
Sobre Quadras ver:
.
.
Sobre a Modinha ver, que nada tem a ver com a Quadra:
.
O Mistério das Quadras
.
Olá :)
.
Esta sequência de quadras
não sei onde irá dar...
Mas façam o favor de...
meu post de hoje espreitar!
,
Espero a vossa visita
e quando isso acontecer...
Espero também lá estar...
p'ra saber o que fazer!
.
16 de Setembro de 2007 2:06
.
sábado, 15 de setembro de 2007
Sequência de Quadras

Já tinhas feito uma visita e foi-me dito...Que eu parecia uma ...saltarica
9/15/2007 11:14 AM
Dia de Bocage - Feriado Municipal de Setúbal
Café do Nicola
Aurindo as delícias do café
Envolto nos fumos do "havano",
Bebem-se os eflúvios do "Elmano",
Com amor e esperançoso filé.
És tu oh Sala dos vates Sé
Onde rebrilha o olhar profano,
Tentando desvendar o arcano.
Do Vate, com arreigada fé.
Não se nota aqui uma falta,
Reminiscências do passado se evola
Dos quadros, da Sécia, do Peralta.
Isto aqui é Sé, Parnaso e Escola
Onde se reza, verseja e s'exalta
Bocage e o café do "Nicola".
"Saiba morrer o que viver não soube"
Bocage
Dedicatória rogatória
Quando tu, genial poeta, viste
A negra Morte a rondar teu leito,
Arrependido, a arfar teu peito,
Ao Criador o teu perdão pediste.
Os prazeres do teu Ser repeliste,
A contrição foi um Credo perfeito,
Da Ala dos Imortais és eleito,
Favor das musas, com amor fruiste.
Se do Além tiveres a permissão
D'enviares teu Estro a este Mundo,
Favorece aquele que tenta em vão
Compor sonetos de pensar profundo,
Como, só tu, com divinal condão,
Soubeste criar com amor fecundo.
Na sala espírita
invocando "Bocage"
Invocais Bocage ? Aqui estou;
Esta alma que vai penando
E o peso aliviando
Dos pecados que praticou;
Meia jornada já alcançou
Neste calvário miserando,
Esta alma purificando,
Que tanto, tanto conspurcou.
Mais um século neste penar
Irá, por fim, alcançar
A glória do Celeste Pai.
Mortais, sejam Irmãos,
Dêem para o Bem as mãos,
Vossos pecados aliviai.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
Festa do Avante 2007
Nº 1763 - 13.Setembro.2007.
Primeira Página
Festa do Avante!
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Sugestões
.
Editorial
QUEM LÁ ESTEVE E QUIS VER, VIU
Opinião
Opinião
Crónica Internacional A propósito de uma campanha
A Talhe de Foice De vermelho, naturalmente
.
Nacional
Mais 5,8% no salário mínimo
Greves na ETAR de Sines e Valorsul
Jerónimo no Seixal
Agricultores no Porto
.
Argumentos
.
Aconteceu
Morre Luciano Pavarotti
Pais de Maddie McCann constituídos arguidos
Empates, vitórias e derrotas
Proibido divulgar «escutas»
Resumo da Semana
.
Página Principal Arquivo Pesquisa Contactos Ficha Técnica
Quadras ao desafio?
.
Belisa disse...
.
Por esta não esperava
fiquei até surpreendida!
Mas pensando bem...estava
a pensar na minha vida.
.
13 de Setembro de 2007 23:30
.
.
De Amor e de Terra disse...
.
Respondendo...
.
Um sorriso alegra a vida
Sorria e ria com gosto
Que gosto teria a vida
Sem um sorriso no rosto?!...
.
Maria Mamede
14 de Setembro de 2007 0:00
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Quadras
Encontrei-te meu amor
À entrada do Pinhal
Agora prometo-te amor
E prometo ser leal.
.
Tua cara é um jardim
Os teus olhos dois amores
Os teus lábios são assim
Como as pétalas das flores.
.
Ao saborear os teus beijos
Nos momentos de ternura
Invade logo em desejos
De aparente loucura.
.
O que eu andava a pensar
Está já acontecer
Pelo muito de te amar
Faz-me andar a sofrer.
.
Já estou a sofrer tanto
A falta do teu amor
Desde que me levanto
Até o Sol se pôr.
.
1995.09.05
J.J. Castro Ferreira (2)
O Parque dos Poetas é um projecto da Câmara Municipal de Oeiras que pretende homenagear a cultura portuguesa. Foi inaugurado em Junho de 2003, proporcionando um espaço de lazer, de cultura e de desporto, procurando cruzar a poesia e a arte dos jardins.
Tem jardins, alamedas, parque infantil, fontes, parque de merendas, anfiteatro ao ar livre, entre outras possibilidades a descobrir.
Estão representados na primeira fase os seguintes poetas: Carlos de Oliveira, Camilo Pessanha, Teixeira de Pascoaes, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, José Gomes Ferreira, José Régio, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Natália Correia, Eugénio de Andrade, Manuel Alegre, Fernando Pessoa, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, António Gedeão e Ruy Belo.
.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
A visita da Filha do Administrador


* Victor Nogueira
AS MELHORES COISAS DA VIDA

No dia 9-9-2007 ao ligar a "net"
OS " AMIGOS "
São a melhor coisa da vida
Passar o tempo com eles
É a melhor coisa da vida
Abraçar as pessoas que se ama
É a melhor coisa da vida
Para todos mando um abraço
Ao Vitor, Fernando, Sofia e Margarida
Obrigado pela vossa visita
Hoje fiquei muito feliz
Para todos dedico este Post
E fui eu que o fiz
As melhores coisas da vida
Podem acontecer aos Domingos
Ver o nascer do Sol
E ter vocês como "AMIGOS"
.
Postado por Belisa in Estrela no Céu
domingo, 9 de setembro de 2007
Maria Mamede - Ainda a Poesia...
Ai esse corpo cidade que a cidade vai abrindo
Esse corpo de ansiedade nas vidas que vão florindo...
Ai esse corpo violado que se esgueira pelas vielas
Esse corpo mal tratado nos corpos deles e delas...
Ai esse corpo almofada sem atavios riqueza
Corpo de pedra lavrada, corpo de vida burguesa...
Ai esse corpo cidade com traineiras na lonjura
Sempre manhã, sempre tarde, nos braços da noite escura...
Ai esse corpo doçura no amor de quem lhe quer
Esse corpo dedilhado, como guitarra-mulher...
Ai esse corpo de espanto desta cidade brumosa
Todo riso, todo pranto, todo amante ansiosa...
Ai cidade marginal do desespero dos dias
Cidade nobre e leal de muitas democracias...
Ai encanto de pintores, de poetas, doutros mais
De jardins cheios de cores, de tertulias ancestrais
És cidade toda Povo de manjerico na mão
E és Porto de igualdade em Noite de S.João!...
Maria Mamede
MEU PORTO
Quando a noite chega
Com seu manto negro
E tu emerges do rio
Liquidamente coroada de luzes
Meu coração acelera o compasso
E meus olhos, em êxtase
Fundem-se em ti...
Pairo
Gaivota em voo tardio
Sem norte e sem rota
Inebriada de luz
E poiso na areia...
Esqueço o ninho, a vida
E embalando o cansaço
Adormeço
Na espera dos primeiros alvores
Dum dia de verão!...
Maria Mamede
DESPINDO A ALMA
Eu dispo a minha alma
À tua frente
Num jeito despudor
De entrega feito
Que despir a minha alma
É o meu jeito
De mostrar e de pedir
Amor!
E dispo a alma
A alma somente
O corpo, é só um fato
Que vestimos
E quando amamos muito
Desistimos
De pensar nessa fato
Que esquecemos...
Apenas alma e lua
São divinas
Qualidades na mulher plena
E por isso
É que vale a pena
Despir a alma
E deixá-la nua
Aos raios de luar
E de verbena
E ao toque doutra alma
Como a tua!...
Maria Mamede
sábado, 8 de setembro de 2007
O cão Bobi
Bobi, era esse o seu nome
o cão amigo dos presos do Tarrafal
Por estes ele era estimado
Mas pelos guardas mal tratado
e por eles assassinado
.
Fora do Campo Bobi foi ferido
pelas balas traiçoeiras do José Maria
Ensanguentado no Campo se refugiou
Pelos seus amigos presos foi tratado
e por eles igualmente acarinhado
.
E se raiva Bobi já sentia
pelos guardas seus inimigos figadais
Rosnando, mostrava os dentes então
Pronto a morder quem tentasse
tirar lhe a vida á traição.
.
Mas o seu destino estava traçado
e o fascismo não perdoa, nem sequer a um animal
e tal como os seus amigos presos,
também ele, Bobi, foi uma vítima
do Campo de Concentração do Tarrafal.
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
ODE AO FERRO
* Vieira Calado
Eh ferro, eh ferro, da idade do ferro!
Ferro da arma branca de matar gente
a ferro em fogo;
Eh ferro, eh ferro,
ferro de cortar cerce a cabeça do rei
e do visionário que quis ser rei,
rei duma nova lei
mas mesmo assim rei;
ferro engrenagem da máquina
elo cabo de abordagem
duma nave espacial à outra;
ferro calado do cruzador
de quem cruza a vida com a dor;
ferro dos ferros do escravo das galés
e do preso por (e) lícito pensar
.. para-
.....-lítico
mistura resistente liga
do sangue ao sangue.
Eh ferro, eh ferro,
ferro das rodas do transiberiano do frio,
da ponte de passar num ápice o rio
e sentir do outro lado o mesmo frio.
Eh ferro, eh ferro,
ferro de ferrar o lombo da manada
e de pregar cristos na cruz;
ferro electroíman gigante ciclotrão
de acelerar a velocidade do abismo
..cada
......vez
.........mais
....fun-
.....-do
abismo macroscópico;
Eh ferro, eh ferro,
ferro dos canhões da guerra de 14
e da lança d’África d’el rei maluco,
dos altos fornos altíssimos do Rhur
e das selvejarias da idade do ferro;
do erro de quem pôs no sangue o ferro
sem cuidar da espírito do homem
desde a idade do ferro,
sem cuidar de que um dia o homem
poria outros homens a ferros,
faria calado do ferro o cruzador
e as rodas dum comboio entrando pelo noite;
de que um dia o homem
cortaria cerce a cabeça do rei
e de quem quisesse ser rei,
se o rei é o sangue
e o sangue é de lei,
que o sangue é de ferro
o único rei!
em 5 Poetas de Lagos. Ed. do Grupo dos Amigos de Lagos
.
Publicado por Vieira Calado Sábado, 10 de Março de 2007
.
Agradeço a sua escolha transcrita em Menção - "Caneta de Ouro" por Vieira Calado registada em Ao (es)correr da pena e do olhar.
HÁ SEMPRE UMA PALAVRA DENTRO DA PALAVRA
** Vieira Calado*
.
Há sempre uma palavra dentro da palavra
um gesto por exemplo
ou o zumbir dum insecto a
levantar o vento morto
Traz uma mensagem fugidia uma essência
que luz ao ritmo do tumulto da claridade
só perceptível pelos reflexos da própria luz
transparente interior das coisas
A sua transcendência identifica o fogo
o perfil exterior e seus artifícios intemporais
E apenas se lê em sinais indicativos
de virtuosos alquimistas procurando o oiro
na flecha no círculo dum arco íris caindo
magnânimo sobre o cinzento da terra
.
em Por detrás das Palavras, ed. >Mic
Publicada por Vieira Calado Sexta-feira, 6 de Abril de 2007
.Agradeço a sua escolha transcrita em Menção - "Caneta de Ouro" por Vieira Calado registada em Ao (es)correr da pena e do olhar.
Terras por J.J. Castro Ferreira (1)
.
.
..
..
Fotografias por J.J. Castro Ferreira
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
CHAMEI-TE NOME DE RUA
Chamei-te nome de rua
Bem simples, muito banal
Mas banhada pela lua
De traçado original
Chamei-te nome de rua
Nome simples e banal!...
Dei-te nome de alvorada
Quando o sol se espreguiça
Nome de pedra talhada
Sem alardes nem cobiça
Dei-te nome de alvorada
Em peito de muita liça...
Fiz-te livre como o vento
Nesse nome que inventei
Nome sem nome, sem tempo
Nos mares todos que chorei
Dei-te um nome, como vento
No tempo que te sonhei!...
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Retrato vivo de um cadáver adiado

,
O Frederico Ugêtraste Bufoleiro foi sempre, desde menino, um pobre diabo conformado, vencido pela vida, subserviente, esperando pacientemente a esmola que o sr. Alencastre de Proença Boavida, dono de uma grande fábrica que havia na sua terra, lhe ia dando magnanimamente uma vez por semana, com aquele bom coração que a virgem santíssima lhe deu e Deus há-de recompensar.
Nascido na década de 50, passou a sua meninice de uma forma normal para a época, comendo uma sardinha ao almoço e uma malga de sopa ao jantar, porque o saudoso Salazar precisava de endireitar as finanças e combater o comunismo. Havia que fazer sacrifícios, para que aquele santo homem pudesse cumprir a sua missão. Pelo menos era o que o Sr. Alencastre Boavida e o prior da freguesia diziam na altura e, por isso, se pessoas tão importantes o diziam, não havia que duvidar. E a ele, Frederico Ugêtraste, ninguém poderá acusar de não ter acreditado.
(E de não acreditar ainda, diga-se em abono da verdade...) A sua crença, aliás, levou-o a conseguir um emprego na fábrica do Sr. Boavida, como «vigilante de produção».
Este cargo consistia em vigiar os trabalhadores da fábrica. Ver se chegavam a horas ao trabalho, procurar que saíssem o mais tarde possível, saber e denunciar quando diziam mal do patrão, enfim, aquelas coisas que hoje estão a ressurgir em toda a linha.
Nunca o Frederico esqueceu os patrióticos dias em que, nas camionetas fretadas pelo Sr. Boavida e organizadas pelo prior da freguesia, viajou para Lisboa a louvar o senhor presidente do conselho. Aquilo sim, eram grandes manifestações de patriotismo, nada que se compare àquilo que hoje se vê. O povo vinha para a rua, (Salazar, Salazar, Salazar!!!) e a devoção era tão grande que até a fome se esquecia.
Que grande governante aquele, lembra ainda o Bufoleiro em momentos de nostalgia que, de quando em vez, ainda o assolam.
Entretanto o menino foi crescendo, o homem da sua devoção caiu da cadeira e, estando já na casa dos vinte anos, foi surpreendido por uma terrível notícia:
«Houve uma revolução em Lisboa. Parece que os comunistas tomaram o poder. O que vai ser de todos nós, santo Deus!!!»
Apesar da sua subserviência, o Frederico não era parvo de todo. E depois de fazer coro com as lamúrias da família, pensou: «Espera aí. As coisas se calhar agora vão mudar. O Alencastre Boavida ficará sem a fábrica? Que se lixe. Se já não puder dar-me mais esmolas nem manter-me o emprego, que vá para o raio que o parta.
Tenho que adaptar-me ao poder que aí vem. Não o afrontar, pelo menos enquanto não assentar a poeira. Depois, logo se verá.»
E no dia 1.º de Maio de 1974 lá estava o Ugêtraste Bufoleiro de bandeira na mão a festejar, entusiástico, o dia do trabalhador.
Nos tempos que se seguiram lá tentou gerir da melhor forma a sua postura perante os acontecimentos. Nunca sabia para que lado se virar. As coisas eram tão confusas que ninguém podia prever como iriam ficar. E ele, subserviente mas não parvo, queria ficar do lado dos vencedores. E, se num dia era capaz de participar numa qualquer acção «revolucionária» do MRPP, do PRP, do PC de P (ml), da AOC ou de qualquer outro grupelho de pseudo extrema-esquerda, no outro dia lá estava nos comícios do PS/PPD/CDS/MDLP/ELP. Aliás, todos eles estavam unidos no mesmo objectivo: combater o que apelidavam de «gonçalvismo».
Até que, com o golpe do 25 de Novembro, as coisas ficaram mais clarificadas e o nosso Bufoleiro pôde finalmente decidir-se. Não de repente, porque primeiro era necessário ver quem iria ganhar as eleições, para poder encostar-se mais confortavelmente. E assim foi.
Eleições realizadas, PS vencedor, Frederico Ugêtraste militante «socialista». O seu percurso teve, a partir daí, alguns escolhos. Nem sempre o «seu» partido ganhou as eleições, mas ele sempre soube ziguezaguear a contento, mantendo a sua «fidelidade» a quem o acolheu sem, contudo, desagradar ao partido de momento no poder.
Até porque, reconhece ele, as diferenças nem se notam… Mas agora, sim, rejubila ele. Agora, com um lugar assegurado num qualquer departamento governamental e com um governo à sua exacta medida, ainda por cima com maioria absoluta do seu amado partido, pode dar vazão àquilo que sempre melhor soube fazer: a delação, a perseguição aos colegas que não se curvem aos seus (dele) donos («são todos uns comunistas, é o que são!!!»), o combate sem princípios aos malvados sindicalistas que não desistem de lutar por um mundo melhor para quem trabalha.
Só há um senão na vida do pobre Frederico. É que ele ainda não entendeu que não é mais do que um cadáver adiado, manobrado por gente que, no fundo, também o despreza. E que dele se livrará na primeira oportunidade.
Por mim, antecipando o inevitável desfecho, desejo-lhe que descanse em paz. E que o seu passamento perdure por toda a eternidade.
Amen
.
domingo, 2 de setembro de 2007
SOMBRA DA GUERRA COLONIAL
Sanfona dum raio
Antunes Ferreira
Os instrumentos são muito diferentes. Não cavaquinho, sanfona, ferrinhos ou bombo. Não senhor. Há costureiras, há granadas de mão, há G3, há bazucas, há morteiros, todos afinados para a guerra mas desafinados para a música. Sons completamente diferentes, diapasão diferente, decibéis diferente e por diante. Mais a mais, sem pauta, sem claves, sem colcheias.

Estão, se calhar, admirados de eu saber tudo isto no que ao musical diz respeito. Mas, se eu vos disser que alem de instrumentista e bailador, também era ajudante do regente, então percebem. Até já substituíra o maestro por algumas vezes. Não foi muito difícil. Com batuta devia ser muito mais; mas, nestas andanças das danças não se usa o pauzinho.
Ah, é importante que diga para completa elucidação de todos vós, que a minha conversada, a Maria dos Anjos, também faz parte do grupo. É bailadora e muito gira. Fica-lhe bem o vestido de noiva que usa nos espectáculos. Roliça, alta, bonita, tem tudo o que uma mulher deve ter e nos sítios do costume. Não conto mais nada, senão lá volto à pívea aqui do mato. É o que há.
É engraçado. O contraste do branco da vestimenta com os outros, vermelhos, fica-lhe bem. Muito bem mesmo, As arrecadas são, até, mais vistosas. Se calhar é do olho do artista, cá do Epifânio que sou eu. Epifânio dos Santos Carvalho, um criado às vossas ordens. Aliás, bem criado, com catequese e tudo, que o meu Pai que Deus tenha e a minha querida Mãe não eram de modas.
O nosso capitão Salvado, quando estávamos na especialidade de Caçadores Especiais, na Amadora, disse-me que levasse o acordeão para Angola. Assim fiz. Já no barco fora uma amante dedicada, sem protestos nem amuos, sempre à disposição. Sanfona dum raio! O Nunes, sapateiro na vida civil, classificara a instrumento. Melhor do que uma mulher: está sempre de perna aberta. E não tem o Benfica todos os meses…
Aquelas do António Mafra
Quando andámos a construir os jotacês, a estender o arame farpado e a cavar os abrigos, mal dava a noite, era um primor. O pessoal pedia-me coisas do arco-da-velha. Ó Epifânio, sabes aquela do António Mafra, no baile da dona Ester? Sabia. Sei, meus, sei. Com o Dom José de Vicente; que é de São Pedro da Cova; pra mostrar qu’inda é valente; foi dançar a bossa nova. Escorregou no soalho, caiu foi pró hospital; eram praí sete e picos, oito e coisa nove e tal.
E o carrapito da Dona Aurora que é tão bonito – fica-lhe bem. E o papagaio, tu não te metas na vida do Joaquim; ó papagaio, tem cautela ó papagaio; que a bebedeira do velho te transforma em pinguim. Outros pediam a Eugénia Lima. Alto lá, tive de explicar-lhes que era uma Senhora, rainha do acordeão, eu era apenas um mísero tocador de sanfona.
Mesmo assim, o breu era mais fácil de passar. Até ao primeiro ataque. Os gajos vieram de mansinho, se fosse o mestre diria mesmo soto você, piano, piano, pianísimo, chegaram à beirinha do arame e vá de despejar chumbo em quantidades industriais. O furriel Mendonça nem soube do que morrera, um buraquito no meio da testa e a parte de trás da cabeça – zero.
O Quim Cuecas, assim mesmo, natural de Malange, terra do feijão branco, que se auto-apelidava Castanho e era da incorporação da Província (colónia não havia), depois de passada a fuzilaria, disse tratar-se de bala de ponta romba, para elefante, entra direitinha e sai a romper tudo, mioleira e ossos, Cortam a ponta, os filhos da puta.
Abatidos foram, ainda, o Chico Rodrigues, o Caté, meu vizinho de Gondomil, ficou um passador, as tripas de fora, duas ou três rajadas de Kala ou outra assim; o António Martins, de Viana uma morteirada, andámos a varrê-lo para juntar os bocados dele e a minha concertina. Furada de lado a lado, inchada da chuva que caía, pior do que vaca prenha.
A todos se fez o funeral, com o capitão capelão, um tal Bragança. Todos foram ensacados e metidos nos caixões que ali tínhamos, com o nome e o endereço pregados por fora, a fim de seguirem para a Metrópole. Menos a desditosa sanfona. Bem tentou o Raimundinho, que arranjava pneus na civil e não era especial adepto do mulherio, tapar os buracos, nas zonas dos foles. Em vão.
Rabo de homem
Por isso, agora, já não há. Nem instrumento, nem música, nem cantigas, nem mulherio. Dizem que o Raimundinho dá um jeito… Eu nunca tentei. Rabo de homem tem pelo como o do macaco. Bom, se calhar menos. Mas, mesmo assim, como nunca experimentei… Porra! Nem conto!
Hoje estou de sentinela. Nesta altura do campeonato, o hoje repete-se indefinidamente. Com os turras aqui ao lado, a gente não os vê e, de supetão, dá merda. Sobretudo, de noite, como é o caso. Mal sonhava eu, em Boivão ou em Valença onde trabalhava de barbeiro – bom, para ser verdade, de praticante de – que meses depois estaria aqui, de quico na cabeça e arma aperrada, temendo ter de soltar um quem vem lá?
Mas, prontos. Um homem tem de pensar noutras coisas, e estar alerta ao mesmo tempo. A esta hora, por certo, o Rancho não está a actuar. São três e meia da matina e a Maria dos Anjos já deve estar no segundo sono. Deve estar a sonhar comigo, penso. Na última carta diz-me que está à minha espera, mas que não vá de licença, é caro e temos de juntar para o casório.
Pode ser que esteja descascadinha, é tempo de calor, só com o lençol por cima, nunca a vi assim, mas é como se tivesse olhado, guloso. Pelo andar da carruagem, deve ser um espanto, estendida, oferecida, eu a cobri-la de beijos, pau no ar, agora é que vai ser, amor, não te assustes, que o padre Joaquim já nos deu a bênção. Pronto.
De pau feito estou eu agora e sem a possibilidade de o desfazer. O meu padrinho Zeferino, que fez as vezes do meu falecido Pai, um dia disse-me que um homem de pau feito não é a mesma coisa que um homem feito de pau. Gostei. Aprendi. Os cabrões são meninos para vir por aí, nos bicos dos pés como as dançarinas e darem-me cabo do canastro. Era bonito, um tipo morto de piça em punho…
Vai clareando. Ouço um restolhar. São eles. Não são. É o Freitas de Sanfins que me vem render, acompanhado do cabo Felismino. Barriga. Tomates. Senha e contra-senha. Tudo nos conformes. Vou até à caserna, estou cansado de tamanha vigília, mas não tenho sono. O maluco lá de baixo também acalmou, é capaz de se preparar para dormir. Se não pensar na minha conversada, é gajo para isso.
Ainda não se pode dar umas fumaças. Tiro um AC do maço, espeto-o na beiçola, a fingir que sim. Caralho, isto é tudo um fingimento. São as colónias que não são, são províncias ultramarinas. Nas esplanadas em Luanda é o vinho que não é vinho, é banga-sumo. Ainda por cima, de abacaxi. Que devia ser ananás, mas é só abacaxi. Que mistela. É a PIDE que não é, é a DGS. Nisso, o Marcelo é que a sabe toda. Com as conversas em família vai-nos enrabando de fininho. Ganda cabrão, igualzinho ao Salazar.
O tio-avô Serafim
Sabem? Eu, para alem de gostar da música, do som, do espectáculo, também gosto do meu tio-avô Serafim que lá em Boivão dizem que é comunista. O velhote, com setentas e muitos, foi-me contando ao longo dos últimos anos, a sua vida durante a República. A primeira, avô (sempre o tratei assim, não conheci nenhum dos verdadeiros), a primeira.
O menino cala-se muito caladinho. República só há uma; melhor, só houve uma. Isto que temos é caca pura. Que rima com ditadura. Aprende, meu catraio, deixa de roçar os fundilhos pelos bancos, levanta o cu e aprende que eu não duro sempre. O Senhor Serafim fora contínuo num ministério, conhecera o Bernardino Machado, o Afonso Costa, o Manuel de Arriaga, o Brito Camacho, o Cunha Leal. Ensinou-mos todos. O Sidónio Pais, não. Era um bandido.
Toma nota, rapazinho: eu não sou comunista, mas podia muito bem ser. Só que não sou e está dito. Mas estes sacanas situacionistas, se um homem não entoa loas ao Salazar – é comunista. Lembro-me perfeitamente de ele me dizer que não podia ouvir o quem não está connosco… E acrescentava, entre duas gargalhadas acintosas – é contra nosco!...
Deu-me a ler o Capital do Marx, uns discursos do Lenine, mas também outros do Churchill. É um grande homem, não é da Esquerda, mas é um tipo com tomates, comentou. E oferecera-me umas Illustrações Portuguezas, sem e já com fotografias. Fez-me descobrir o assassino Hitler, como lhe chamava e deu-me uma História da Guerra de Espanha, editada na clandestinidade. Com um prefácio de Manuel Azaña.
Sim, porque o Leopoldo Nunes, o José Augusto – que depois viria a escrever uns escarros intitulados carta de Paris – o Cunha Júnior o Aprígio Mafra, eram todos pró Franco, o galego caganito, e as reportagens deles eram fascistas, dizia o avô Serafim. Até o Norberto Lopes, o Portela e o Mário Neves, mais inclinados à esquerda…
O Gaiolas corneta já tocou para o pequeno-almoço, que o Cuecas já nos ensinou que é o mata-bicho. O sol levantou, vai estar mais um dia de calor de ensopar um marmanjo. Com autorização do nosso capitão, os gajos que saem de sentinela podem ir comer sem fazer a barba. E o homem é duro como o aço, não brinca em serviço, mesmo aqui na mata, se um tipo mija fora do penico – é ecada à máquina zero. Do que me encarregou, o que é chato. Até para mim.
Uma mina – das nossas
É então que estala a maka. São só tiros e granadas, a esmo, para cima da malta de caneco na mão. Aproveitando a rendição das sentinelas, os paneleiros vieram atirar-nos como a bonecos de feira. Enfio-me num buraco de morteirada, mas saio, logo de seguida, rastejando até à caserna, para ir buscar a canhota. Aqui é o Inferno, cabrões dos mafarricos.
Quando puxo a culatra, sinto-me no ar. E estou. Pisei qualquer coisa e voo até cair de borco. Não me lembro de mais nada. Acordo no Hospital Militar em Luanda, o médico diz-me que tive muita sorte e só fiquei sem a perna esquerda, por baixo do joelho. Era uma mina, das nossas, caralho, das nossas. Para outros pisarem, que não eu. Mas pisei.
No resto está tudo bem, umas ligaduras, umas tinturas, umas sulfamidas, o pé que me resta engessado, mas não há-de ser nada. O clínico, que é major, conta-me que no Alcoitão me põem uma pata nova. Melhor do que a verdadeira, acentua para me animar. Tu que fazes? Para já, nada. Mas vais começar a fazer. Ginástica e tens de te habituar às muletas. E passas à peluda, logo que estejas bom.
Ele insiste: que fazes na vida civil. Barbeiro, ou seja, ajudante. Não tem problema, podes cortar cabelos e fazer barbas, tens os dois braços e as duas mãos. Se fosses carteiro, isso já era outra coisa, bem diferente. Assim, não te chateies. Vai tudo correr bem. Para os que lerparam acabou-se. Mas para os que ficaram, como tu, que não seja o pior. Vais arribar, moço.
Claro que vou. Quando sair do avião, outra loiça, o barco já foi, vou a mata-cavalos para Boivão, de táxi, nem olho para Valença, nem para a ponte, muito menos para a Galiza. Para ver a Maria dos Anjos, que deve continuar a ter os seios empinados como dois morros de mel. E para encontrar os outros, os amigos, o avô Serafim, dar-lhe um abraço dos grandes. À Maria dos meus amores, arrefinfo-lhe um beijo na boca – de estalo. Ou mais. Na frente de toda a gente, para que saibam que é minha, uma espécie de ferrete de marcar novilhas – mas sem dor, só doçura.
Depois, bom, depois, volto a Valença, visitar o patrão Gonçalves para lhe dizer que estou ali, torno à tesoura, ao pincel e à navalha. Mas, antes, durante uns dias, fico-me pela minha freguesia. Até porque, quero tratar da boda, mesmo que os pais da Maria dos Anjos enjeitem a novidade. Que, no fundo, não é nenhuma, é mais um fingimento a juntar aos outros.
O enfermeiro vem tirar-me a febre, vai na boca ou no sovaco? Aí mesmo meu sargento, sei lá por que cus já passou esse zingarelho. Mede-me a tensão. A outra, sem n, vai voltando só de pensar na moçoila que me espera. E, aí, uma dúvida. Quando ela me perguntar se volto para o Rancho – que lhe digo? Com certeza que não, nesses preparos, infelizmente. Dançarino sem perna, por melhor que seja a prótese (penso que é assim que se chama), corre o risco de pisar chão torto e inclinado. Viras, malhões e quejandos – acabou-se.
Já sei. Percorrendo-lhe a pele de pêssego, vou responder-lhe que sim. E acrescento logo que para tocar sanfona os dois braços chegam. E para a apertar ao peito – também. A perna? Que se foda!
(Fotos da guerra: 4CCE, a quem agradecemos)
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reproduzido por gentileza do Antunes Ferreira in travessadoferreira
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Alguns dos contos foram reproduzidos no Kant_O: O Rio e a Sorte , O Cunhama ai ué e
Boca Calada
e neste Ao Sabor do Olhar: Grades e Copos e Carne Fresca .
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Mas repito, nada como visitar e deambular pela travessadoferreira , onde há muitos e variados escritos, não só dele como d'outrem.
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NOTA - No texto fala-se nos cigarros AC, uma marca de Angola. E esta referência fez-me lembrar dum comentário do meu pai, à mesa, em Luanda: que Fulano «tinha sido preso pela PIDE porque numa cervejaria puxara dum maço de AC, olhando para este e comentando "Adeus Craveiro"» e mais o meu pai não contou ficando eu, miúdo de 12 anos, sem saber porque carga de água o homem tinha sido preso por se despedir do Craveiro Lopes, substituído pelo Américo Tomás na Presidência da República, em confronto este com o General Humberto Delgado.
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Só mais tarde, já em Portugal, soube das divergências políticas entre o PR que fora substituído e o efectivo governante-mor, Salazar, apoiado na PIDE. Sempre ouvi dizer mas não sei se é verdade, que em Angola o vencedor teria sido efectivamente o chamado General sem Medo. (Victor Nogueira)
sábado, 1 de setembro de 2007
HÁ UMA ESTAÇÃO NA MINHA CIDADE

Na minha cidade
Que o sol de inverno
Quase não visita
Feita de emoção
Feita de ansiedade
Que quem chega ou parte
Embora com pressa
A acha bonita...
E quando o sol espreitando
Seus raios projecta
Por entre friestas
Duma cor dourada
Vem dizer da luz
Vem lembrar as festas
E a juventude
Sempre mui inquieta
E mesmo a velhice
Fim da caminhada...
E os viajantes
Essa multitude
Passando apressados
Dos anos pendentes
Quais brincos de cor
Na orelha do tempo
Quedam-se encantados
Do lugar ausentes
Ausentes da dor
E por um momento
Esquecendo cuidados...
Há uma estação
Na minha cidade
Feita de beleza
Feita de magia
Onde desce a dor
E chora a tristeza
Onde entre o riso
Onde há alegria.
E nessa estação
Da minha cidade
que o sol de inverno
Quase não visita
Há sol de esperança
E bulício eterno
Sonho de bonança
Que afasta a dedita!...
Há uma estação
Na minha cidade
De que eu gosto tanto
Tanto, mas tanto
E essa estação
Da minha cidade
É uma estação
Com nome de Santo!...
22/01/07












