Viva a Vida !

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domingo, 30 de novembro de 2014

um texto de Mia Couto




"Uma única certeza
demora em mim:
o que em nós já foi menino
não envelhecerá nunca."

Mia Couto
Do poema - declaração de bens-
Do livro "Tradutor de Chuvas"


sábado, 7 de setembro de 2013

o poema segundo Mia Couto

O poema confirma: sonhar é uma imitação do voo. Só o verso alcança a harmonia que supera os contrários - a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo.
Mia Couto

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Mia Couto - Testamento Da Mulher Suspensa

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Testamento Da Mulher Suspensa

Eis o que vos deixo:
um leve gosto
de renascer lembrada.

E um falso desejo de ser esquecida.

Que eu virei buscar a espuma da onda
que ficou para sempre por quebrar.

Beleza não me bastou:
o que quis ser
foram cetins de fogo,
pétalas de cinza depois do abraço.

Nem flor invejei:
o que mais ilumina
vem de um oceano escuro.

Esperanças tive: todas naufragaram
antes cansaços e remorsos.
Procurei ilhas e mares:
só havia viagens,
travessias de água
nos olhos de quem amei.

Num mundo com remédios parcos
não clamei bravuras.
Injusto é viver
em perecível ser.

Menina,
aprendi a desenrolar tapetes
em rasos pátios voadores,
varandas maiores que o mundo
onde o tempo à nossa mão vinha beber.

Meus pequenos dedos
rasgaram céus,
mas o ensejo era largo:
em mim secaram
lembranças de um mar antigo.

Assim,
tudo o que sou
já fui
na criança que sonhou ser tudo.

Meus lutos, sem emenda, carrego:
viuvez de mulher
não vem de marido.

Vem do amor não mais sonhado.

Com a fragilidade de um riso
enfrentei ruínas e derrotas
e apenas a vida, calada, me calou.

Tudo falei com meus amantes.
Perante o amor, porém, não tive palavra.

O que da vida me restou:
pegadas alheias sob meus pés molhados.

Viver sabe quem ainda vai viver.

Deixo-me,
mulher que quase foi,
à mulher que nunca fui.

Mia Couto in "Tradutor de Chuvas"
 


quinta-feira, 11 de junho de 2009

Recensão de Terra Sonâmbula, de Mia Couto, por Madalena Mendes

Categoria: Literatura - Romance
Idade: 0 - 5
Editora: Caminho
Ano da Obra: 2008
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O TEMA DO MÊS autonomiza um conjunto de listas temáticas de recensões organizadas pelo leitur@gulbenkian aquando da comemoração de certas efemérides.

Para assinalar o Dia do Livro de 2009 contámos com a colaboração de Sandra Velhinho, Madalena Mendes, Ilda Maria Sobral Azinhais Velez e Duarte Sérgio da Silva Martins, nossos leitores que responderam ao desafio de enviar uma recensão crítica de um livro à sua escolha.

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in

leitura.gulbenkian


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Terra Sonâmbula
recenseador: Madalena Mendes, 2009

Apreciação:

Mia Couto, escritor africano, é um exemplo paradigmático no campo da reinvenção da linguagem e da recriação da língua portuguesa. A sua obra, forjada no caldo entrecruzado da memória, da História e das estórias, atravessa os tempos e os espaços e emerge de África para se assumir como narrativa universal.
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Exímio na arte da transgressão, o escritor-poeta impugna os binarismos dicotómicos – branco/negro, feminino/masculino, mito/verdade, natureza/cultura, vida/arte, facto/ficção, razão/sentimento; norte/sul -, nos trilhos de uma outra legibilidade das fracturas introduzidas pelos cânones etnocêntricos, em prol de uma nova geopolítica do conhecimento perfilada no reconhecimento da pluralidade e multiplicidade dos conhecimentos e dos espaços e lugares da sua enunciação.
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A obra de Mia Couto, projecto clinámico inscrito na falinvenção das razões silenciadas (Santos), fronteiriças (Mignolo) mestiças (Ribeiro), híbridas (Canclini) e oprimidas (Freire), apresenta-se como referência incontornável para se repensar a literatura, a linguagem, o dinamismo da língua, a História e o lugar nela, dos sujeitos e da multiplicidade mestiça das suas identidades.
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Professora, Investigadora e Doutoranda em Educação, 47 anos.
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