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sábado, 20 de julho de 2013

José Ferreira - O sufrágio universal contra a democracia

Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.


O sufrágio universal contra a democracia

Há algum tempo que venho refletindo sobre o papel que a democracia tem jogado enquanto ideologia conservadora. Em 2011 escrevi este pequeno texto. Em resumo, eu pego nas reflexões de Pierre Bourdieu sobre o conservadorismo do jornalismo e o aplico aos partidos. Quem ler atentamente verá que eu estou a criticar, sobretudo, o PS em oposição ao PCP. Recentemente eu voltei-me para leituras que me permitissem aprofundar esta hipótese. Recentemente li Cinismo o falência da crítica (V. Safatle) que tenta explicar porque as pessoas aderem a uma ideologia na qual não acreditam. Páginas tantas escrevi este texto. Logo depois, li Estado de exceção (G. Agamben) e estou lendo Bonapartismo e democracia (D. Losurdo). É o cruzamento entre estas duas últimas leituras que quero partilhar a reflexão que se segue.
Ambos concordam que nos dias de hoje o voto deixou de influenciar a políticas. O poder do governo é tanto que pode decidir o que lhe prover sem que as eleições possam interferir nessas decisões. Ambos estão de acordo que isso se deve ao fato do poder executivo ter assumido funções que antes competiam ao legislativo. E, assim, a única decisão que é tomada democraticamente é a escolha do “ditador”. O lugar da disputa de ideias foi tomado pelo carisma de uma personalidade. Por fim, ambos apontam o governo de Franklin Roosevelt como modelo acabado desta nova forma de fazer política.
O desacordo começa por ser teórico-metodológico. Agamben é foucaultiano. Logo, a sua análise supõe uma história contínua de transformação de ideias. A oposição entre “Estado de direito” e “Estado de sítio”, clara na Revolução Francesa, foi-se apagando. Hoje, vivemos num Estado onde o direito é ultrapassado em nome do direito sem que o “Estado de sítio” necessite de ser formalmente declarado. Compreende-se então porque a chave desta transformação é a perda de poder do legislativo: elegemos executores que também legislam e legisladores que, no melhor dos casos, entretêm o povo. É assim também que o carisma do político se sobrepõe à decisão da política a ser seguida. A definição da lei torna-se uma tarefa secundária em relação a execução da lei.
Losurdo é marxista. Para ele a história das ideias não é linear mas avança ao sabor da luta de classes. Seu livro não é tão claro acerca da “natureza” dessa mudança, mas é mais claro sobre o seu processo. A expansão do sufrágio universal, na segunda metade do séc. XVIII e no séc. XIX, correu par e passo com o temor da classe dominante. O voto dos “não proprietários” (dos trabalhadores) não teria outro efeito senão o confisco da propriedade privada. Somente um executivo forte, suficientemente distante dos eleitores, suficientemente carismático (comparável a um monarca), poderia “controlar” dos trabalhadores. Este modo de fazer política começa a ser desenhado nas duas últimas décadas do séc. XVIII. Losurdo sustenta este argumento com artigos de opinião e editoriais de jornais que acompanharam a redação da Constituição Federal norte-americana em 1787.
A abordagem de Losurdo permite sustentar um argumento que eu já vinha defendendo. A transformação da Política em politica fetiche, a passagem do debate de ideias para o debate de pessoas, deu-se com o fim ou a desqualificação das organizações intermediárias entre o “povo” e o governo. A produção de ideias pelos sindicatos e outras organizações de interesse foram combatidas – em nome da “vontade genuína” do indivíduo – para dar passo à propaganda do carisma do candidato. A transformação dos partidos é concomitante da subordinação do executivo ao legislativo. Os partidos começaram por ser “máquinas” de propaganda de ideias que lhe permitiam chegar ao legislativo. Hoje são simples máquinas de propaganda de candidatos que buscam chegar ao executivo. – Losurdo mostra como os Pais Fundadores dos EUA estão perfeitamente conscientes do “perigo” do debate de ideias na Assembleia Legislativa e é por isso que reforçam os poderes executivos.
O preço a pagar por isso é o fascismo soft em que vivemos atualmente.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

José Ferreira - Gramsci para tótós

Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Gramsci para tótós

António Gramsci
Hoje, mais uma vez, ouvi um resumo do “pensamento gramsciano” tal como é entendido por várias organizações populares brasileira. Uma confusão! De um lado, as maquinas do mal: os aparelhos privados de hegemonia. Do outro, os agentes do bem: os intelectuais orgânicos. Os segundos, indivíduos destacados de entre as classes subalternas, dirigem seus companheiros contra aquelas máquinas. Uma luta entre o bem e o mal – dizer isto não é excessivo.
Mas basta ler o Il Risorgimento para ver que não é bem assim. Intelectuais orgânicos são aqueles que de facto elaboram o pensamento das classes. Neste caso específico, mais do que membros das classes subalternas, são romancistas. Suas obras estruturam o pensamento nacionalista que há-de ser capaz de unificar a Itália. Sob liderança da burguesia e contra o burocracia do Vaticano em declínio. Se há uma diferença entre intelectuais orgânicos e intelectuais no sentido habitual é que os primeiros não precisam de ser reconhecidos como intelectuais para sê-lo. Mas tampouco precisam de ser elementos da classe subalterna. O que os define é, consciente ou inconscientemente, influenciarem o modo como um grupo ou classe pensa.
Neste caso, Nietzsche é um bom exemplo. Nunca pretendeu escrever para os seus contemporâneos – que detestava. Mas ao escrever isso mesmo traduziu melhor que ninguém o sentimento da nação alemã do final do séc. XIX descontente consigo mesmo. Não apenas traduziu esse sentimento em livros. Uma vez publicados, seus livros reforçavam esse sentimento. O mesmo se pode afirmar de Menocchio – moleiro do séc. XVI queimado pela Inquisição,  cujo processo foi abundantemente estudado por Carlo Ginzburg. A sua posição na aldeia (moleiro) permitia-lhe conhecer o modo de pensar dos seus vizinhos, elaborar o seu a partir daí, e divulgar as suas ideias que, afinal, eram de todos. Lénin, ao ser capaz de expressar e influenciar a vontade da classe operária russa, foi igualmente um intelectual orgânico.
O que Gramsci faz é algo muito simples. Ele duplica a luta de classes. Ela existe, primeiro, entre classes e, depois, entre intelectuais orgânicos. Podemos dizer hoje: entre formadores de opinião. Nesse sentido, a tarefa dos comunistas era levar a cabo a segunda luta. E assim abrir espaço para que o proletariado (as classes subalternas – como ele escreve para escapar à censura) faça a primeira. Os aparelhos privados de hegemonia – a Igreja, o jornalismo, os partidos e sindicatos, a escola, etc. – não são mais que os espaços onde os intelectuais orgânicos disputam entre si. E, na medida que são propriedade da burguesia, tendem a ser favoráveis aos intelectuais da burguesia.
Note-se aqui uma coisa muito simples. Gramsci quer explicar porque o socialismo foi possível na Rússia mas não na Itália. Pois, a mesma crise económica que abalou a Rússia abalou toda a Europa. Sua resposta é a seguinte: uma crise económica não é suficiente para fazer a Revolução; é necessário que as massas estejam dispostas a deixar-se liderar por revolucionários. Mas os revolucionários nunca irão encontrar uma massa despida de ideias disposta a recebê-los. Pelo contrário, irão enfrentar os seusideólogos (intelectuais orgânicos) e estes, em sua grande maioria, são o elo entre tal classe dominada e a classe dominante. Portanto, os intelectuais orgânicos de uma classe revolucionária podem ser tanto revolucionários como reacionários (lembremos da crítica de Lénin ao oportunismo revisionista).
Em uma crise, a burguesia pode ver-se despida de grande parte da sua força material mas, ainda assim, ter força ideológica para manter as outras classes sobre o seu domínio. Por outras palavras: só é possível vencer a luta de classes fundamental se houver condições para vencer a sua duplicação entre intelectuais orgânicos. Sem isso, os proletário são levados na direção equivocada – como o foram pelo fascismo.
Parece-me que não há grande margem para divergências em relação ao que ficou dito. Há, não obstante, dois pontos onde Gramsci foi ambíguo.
1. Se as crises não são condição suficiente para uma situação revolucionária. Ao menos, são condição necessária? Até onde eu li, Gramsci nunca respondeu explicitamente. Tal facto permitiu que se defendesse que a luta entre intelectuais orgânico podia ser o motor da história. Há medida que os intelectuais de esquerda fossem ocupando os vários espaços nos aparelhos privados de hegemonia a força da classe operária ia crescendo com a sua “tomada de consciência”. Eis o cerne do eurocomunismo.
Contudo, esta análise esquece que Gramsci não produziu um tratado de política. Ele apenas deixou as suas notas do estudo da luta da burguesia contra o feudalismo que, em Itália, terminou bem depois do resto da Europa (em particular, pela influência do Vaticano). Ainda que ele não enfatize a necessidade da crise, ele é obrigado a estudar o momento da crise do feudalismo. Daí que eu me permito a uma interpretação que, sem dúvida, ultrapassa Gramsci na mesma medida que a interpretação eurocomunista. Mas na direção oposta. As crises surgem como uma oportunidade. Se ela é aproveitada ou não dependerá do embate entre intelectuais orgânicos.
2. Gramsci foi muito claro ao afirmar que somente os intelectuais orgânicos organizados em partido tinham capacidade de conduzir um processo revolucionário. Mais não fosse pela desvantagem em relação às intelectuais orgânicos do proletariado afins à burguesia. Não obstante, conceituados gramscianos consideram que tal defesa do partido se deveu apenas à admiração de Gramsci por Lénin e é incompatível com o resto da sua teoria. Esta teoria assenta no erro de que todos os intelectuais orgânicos são de esquerda. Basta que cresçam em número e a Reforma (tais autores também costumam adotar a posição reformista) está garantida.
Ora não é essa a postura de Gramsci. A transformação da sociedade capitalista em uma sociedade socialista e, também, a condução da sociedade socialista exigem um trabalho de liderança organizado. Por isso mesmo, o partido é indispensável como instrumento de liderança da classe trabalhadora. Nesse sentido é um espaço de coordenação dos intelectuais orgânicos de esquerda – um aparelho privado de contra-hegemonia e futura hegemonia. (Gramsci estava com um olho no burro e outro no cigano. Quando analisava o sucesso da burguesia em organizar as classes populares contra o Vaticano, não deixava de contratá-lo – nota-se pelos termos que emprega – com o insucesso do PCUS em conduzir a classe camponesa).

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

ainda em torno de Niemeyer



  • ‎"Os mesmos jornais e televisões que atacam os comunistas sem piedade rendem homenagem a Oscar Niemeyer. Porque era um génio, porque era um sonhador, porque era um humanista. Mas nunca por ter sido comunista. Essa é a parte que escondem para que não se saiba que é a rebeldia que estimula a arte e a cultura. Niemeyer era comunista como Pablo Picasso, Bertolt Brecht, Pablo Neruda, Carlos Paredes, Lopes Graça, Maiakovsky, Lorca e Tina Modotti." (pelo Bruno Carvalho)

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    Gosto ·  ·  · 
    • André Amador e 15 outras pessoas gostam disto.
    • Luisa Freire Sim José, sobre a opção politica tentam sempre silenciar, não referir que são homens da cultura e COMUNISTAS o que significa apenas uma coisa, não sabem nem sonham o que é a palavra DIGNIDADE!
    • Jose Ferreira Isto é... ainda não conhecemos o memorial da Veja! 

    • Jose Ferreira Caro David, vc está em campanha contra as minhas publicações??? Eu também sou comunista e não sou psicopata.
    • Pedro Bingre do Amaral …e Le Corbusier…
    • David Calado Por isso. Não confundir a grandeza intelectual com as escolhas políticas. Tenho muitos amigos marxistas, alguns deles são cientistas de topo, como o José "Pepe" Ramos (Catedrático de Pré-História em Cadiz), o Francisco "Paco" Nocete (Catedrático de Pré...Ver mais
      Ontem às 14:28 · Editado · Gosto · 1
    • Jose Ferreira "É claro que ser materialista ajuda na análise social..."
    • Jose Ferreira Posso confessar aqui o meu trajeto. Militante do PCP, li "Teoria e história", escrito por dois membros do Instituto do Marxismo-Leninismo do PCUS e, claro, (até em primeiro lugar) o "Manifesto comunista". Quando emigrei comecei a interessar-me por outr...Ver mais
    • David Calado Aliás, a escola na qual me insiro a nível de investigação é o denominado "Neo-Marxismo Francês" dos anos 70 e as escolas que os seguiram.
    • David Calado Experimenta Godelier. Foi buscar muita coisa a Bakounine. 

      Ontem às 14:36 · Editado · Gosto · 1
    • Jose Ferreira Está na lista. Um professor acabou de me recomendar!
    • David Calado É o básico!!!
    • Jose Ferreira Hum! O pessoal com quem aprendo marxismo aqui detesta Bakunin (grafia brasileira). Aliás, ando entre o meu orientador - a sociologia disposicional inspirada em Pierre Bourdieu, a que, aqui, juntaram uns pozinhos de Sidney Mintz (turma do Moacir Palmeira, não sei se o nome chegou aí a Londres) - e uns amigos que Serviço Social que trazem essa leitura lukácsiana de Marx. (O Zé Paulo Netto do PCB é a referência).
    • David Calado Hoje sabemos que as contradições existentes nos modelos sociais não são só contradições internas. O panorama é muitissimo mais extenso e complexo que aquele defendido pelos clássicos. Sobre a grande diferença entre a origem do poder entre Marx e Bakounine. Para Marx a origem do poder era económica e somente económica. Para Bakounine a origem do poder é a religião e hoje, muitos pensamos que Bakounine tinha razão (incluindo Godelier).
    • Jose Ferreira Isso é porque se esqueceram de ler Engels. Algures ele define o que considera "económico" (uns textos sobre materialismo dialético do fim da vida). Um dos erros de leitura de Marx é que no final do séc. XIX, como mostra Polany, o adjetivo económico tornou-se mais restritivo. E ler textos de Marx com os olhos do séc. XX dá nisso.
    • David Calado De ler o quê? Podes crer que a maioria dos cientistas sociais materialistas controlam bem Marx e Engels.
    • Jose Ferreira Dei enter sem querer e tive de emendar.
    • Jose Ferreira volto mais tarde.
    • David Calado Jose Ferreira, Marx não era Jesus Cristo ou Mohamed nem "O Capital" é a "Bíblia" ou o "Qhuran". Tudo tem de ser visto à luz da sua época. Tão ou mais actual que Marx é Max Weber. São bibliografia clássica.
    • Victor Nogueira Jose Ferreira E ontem em Portugal faleceram dois comunisdas - Joaquim Benite, encenador teatral, e Papiniano Carlos, escritor. Mas a despropósito do XIX Congresso do PCP as caninas vozes do dono no agora pasquim "Expresso" de Balsemão a despropósito caluniam Álvaro Cunhal, a quem apelidam de "fascista vermelho", denunciando inexistentes jornalistas comunistas que infiltram (ainda) as redacções de jornais portugueses.
    • David Calado Até são capazes de ter falecido mais que dois comunistas, ontem! Mas o que move o homem, essencialmente, é a acumulação de prestígio. Em sociedades onde a acumulação de prestígio é similar a acumulação de riqueza e controle dos meios de produção, auqeles que buscam prestígio enveredam por esse caminho. Em sociedades onde o prestígio está relacionado com a distribuição de bens, os homens de prestígio tendem a ser os mais pobres na aldeia a nível de bens pessoais. Hoje sabemos muito mais que no tempo de Marx.
    • Jose Ferreira Não me parece que Weber possa defender-se como mais atual que Marx. Senão, porque não pegar na modas, e dizer que Weber foi ultrapassado pelo Deleuze. E, então, o que move o Homem é o desejo!


      De qualquer modo tínhamos dado uma grande paulada na teoria marxista. Marx nunca disse (repito: nunca disse) que o Homem é motivado pela busca o lucro. Ele disse que sem lucro a economia não funciona! Como, de resto, vê-se nos dias de hoje. E o Homem é motivado por fazer a economia funcionar. O capitalista não acumula dinheiro por algum desejo subjetivo de ter mais que os outros. O que acontece é que existe uma "lei" (no sentido que Goethe afirma que a forma de organização das coisas lhe impõe uma dinâmica NECESSÁRIA)... bom, existe uma LEI de modificação da composição orgânica do Capital, segundo a qual, o capital fixo substitui crescentemente o capital variável. E, portanto, a divisão da riqueza entre lucro e salário tende sempre a beneficiar os detentores do capital fixo, isto é, o lucro.

      Enfim, são as leitura erradas de Marx que o desprestigiam.