foto Victor Nogueira
Viva a Vida !
sábado, 23 de abril de 2016
Gilberto de Oliveira e o Campo de Concentração do Tarrafal
foto Victor Nogueira
terça-feira, 29 de abril de 2008
Convívio do Movimento e Contraste (33) - Poesia de Gilberto de Oliveira
.
* Gilberto de Oliveira
.
.
Há para aí tão falsos militantes
Cujos ecos de frases bem porreiras
Que vão palrando como verdadeiras
Quando afinal são bocas de talantes
.
Em cada esquina nos bons instantes
Correm vencendo todas as barreiras
Deixando um rasto de más sementeiras
Que geram riscos de maiores tratantes
.
São lestos nas partilhas dos seu louros
São crassos no ferver da verborreia
Agem como cegos são os touros.
Esquecem porém que as vias verdadeiras
Recusam ser presa de mata-mouros
Têm seus espinhos como sãs roseiras.
.
.
.
O verdadeiro e sério militante
Não é quem quer ou diz fadado
Mas sim quem na verdade é dedicado
E tem de dar á luta vigor constante
.
Tem de saber viver cada instante
Sem vacilar num mundo inacabado
Não pode ser apenas revoltado
Das injustiças que vê a cada instante
.
Tem de saber medir as posições
Do certo e do incerto no combate
E não falar apenas aos corações
.
Tem de aferir cada resultado
Tem de dominar todas as paixões
Sem pretender ser mais que um soldado.
.
.
.
Eu conheço militantes
Que são quais seres mutantes
Que mudam como tratantes
Em todos os seus instantes
.
Ser militante é estar certo
De proceder com acerto
Sem passar pelo aperto
Esteja longe ou esteja perto
.
O militante
Denunciante
É um tratante
.
O militante
Se confiante
É triunfante
.
O militante
Sendo mutante
É revoltante
.
O militante
Exuberante
É traficante
.
Um militante
Sendo hesitante
É perturbante
.
Um militante
Se é perturbante
Não vai avante
.
Um militante
Se petulante
É desprezante
.
Ser militante
É ser constante
Em cada instante
.
Ser militante
Denunciante
É infamante
.
Um militante
Sendo inconstante
É um farsante
.
A militância
Com arrogância
É ignorância
.
Ser militante
E ignorante
É humilhante
.
Ser militante
Preponderante
É de pedante
.
Ser militante
Petulante
É um tratante
.
Ser militante
E confiante
É relevante
.
.
Lisboa
(1997. 02. 18 - última versão)
.#################
.
.
Registados no Depósito de Presos de Caxias (1966/67)
escritos em épocas várias
.
.
Bendito seja o sol que regressou!
Bendita seja a luz que nos dá vida!
A louca tempestade foi vencida,
Por fim a paz ao mundo já voltou!
.
Quantas aldeias ela devastou?
Quanta gente, no mar, não jaz perdida?
Quanta seara não foi destruída?
Quantas vidas por nascer ela gorou?
.
Que foi que enfureceu os elementos?
Que força, tão cruenta e poderosa,
Quis assim aumentar nossos tormentos?
.
"Forças da natureza caprichosa
Esquiva a sábios e a seus inventos!"
- Responde Adamastor com voz truosa.
.
.
.
Poemas Incompletos
.
.
1. - Vinte e oito de maio, data fatal,
Fascismo e morte são coincidentes
Na minha vida são duas vertentes
Que me causaram o maior mal
,.
Prisões, tortura, sofrer infernal,
Às mãos de carrascos mais que dementes
Data em que finou o meu mais querido ente
Ficando só p'ra sempre mas leal.
.
Que data mais maldita sem defesas
Que semeou em mim tanta amargura
E me deixou sem tino e sem defesas.
.
A data que só mal em mim perdura
...................
Por mais que queira vencer o mal que dura.
2. - Vinte e oito de Maio, data fatal,
Da minha vida tão cheia de dor
Não fora ser tão grande o meu fervor
Há muito que teria acabado mal.
.
Se aos meus ideias não fosse leal,
Se alguma trégua desse a outro valor,
Jamais teria sentido o calor
Da alma querida a que fui leal.
.
Data maldita p'ra sempre lembrada
Fascismo e morte, termos negativos
................
.
................
................
................
.
3. - Vinte e oito de Maio, fatídica data,
Que na minha vida tanto me marcou
Data em que o fascismo em Portugal vingou
E que não só por mero acaso me fere e mata.
.
Foi um tal dia em que a morte desacata
P'ra sempre minha companheira levou
E que a vegetar por cá me deixou
E sem me matar a vida, me desata.
.
................................
................................
................................
.
.
Gilberto Oliveira, Memória Viva do Tarrafal, Edições Avante!, 1987
.
Referência bibliográfica a inserir na Bibliografia temática da «Antologia da Resistência», na secção «Testemunhos»:
.
*OLIVEIRA, Gilberto (1987), “A «frigideira»”, Memória viva do Tarrafal, Lisboa, Edições Avante!, col. «Resistência» (n.º 19), 244 p., excerto reproduzido inicialmente por Sandra Cristina Almeida no blogue História e Ciência; http://historiaeciencia.weblog.com.pt/
.
At 9:25 AM, Daniel Melo said...
.
Breve biografia de José Gilberto FLorindo de Oliveira:
.
preso pela 1.ª vez em I/1933, como dirigente das Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas. Saiu em liberdade em III/1935. Participou no VII Cong.º da Internacional Comunista e no VI Cong.º da Internacional Juvenil, em Moscovo, juntamente com Álvaro Cunhal. EM VII/1936 é novamente detido, sendo enviado para o Tarrafal, onde fica enclausurado até I/1946. Participou no II Cong.º Ilegal do PCP (1946). Passou entretanto à clandestinidade, aí permanecendo durante vários anos. Foi membro do Comité Central do PCP, na clandestinidade. Publicou o livro Memória Viva do Tarrafal - Edições Avante, colecção Resistência.
.
Escreveu poesia (cujo texto final ajudei a fixar por já estar cego) e outros escritos não publicados, de que me tornou depositário, ainda em vida (Victor Nogueira)
| . |
.
.
Foto/Logotipo de Olho de Lince em - Oficina das Ideias
.
.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Convívio do Tempo ... Extra (23) - Poesia de Gilberto de Oliveira
* Gilberto de Oliveira
(n. 1915 - + )
A Minha Resposta
,
Vinte e seis dias já, há quasi já um mez.
Que vim para este templo de pensamento.
E o tempo, oh! ... maldito passa lento;
Olhando p'ra mim, com super altivez.
.
Mas não julgues que com isto burguesia
Meu espírito fica amedrontado.
Pois me sinto 'inda mais revoltado.
Por desvendar aqui , a tua hipocrisia.
.
É com a prisão burguês, que te defendes?
Do operário que quer a liberdade!?
Sim, é isso certamente, o que pretendes.
.
Mas vêde bem, oh burgueza sociedade
O povo já sabe que por base só tendes
A infâmia, a fraude, a falcidade.
.
1933.08.03 -Lisboa (1)
******
À Burguesia
.
.
Oh vil burguesia, imérita velha traiçoeira.
Com teus vestidos, de rapariga, jovem atraente.
Consegues iludir do povo, ainda alguma gente.
Que inconsciente vai caindo na tua ratoeira.
.
E como qual réptil, na sombra vais rastejando.
Sem cantar vitória, pois te dentes já moribunda.
Sim é agora o teu fim, oh sociedade imunda.
É a invencível morte, que p'ra ti vai avançando.
.
E representada, a tua morte é, p'lo fascismo,
Consequência única, do fim do teu império.
E então darás lugar, eternamente, ao Leninismo.
.
A esse ideal puro e justo sem vitupério;
Que edificará na terra, p'ra sempre o Socialismo;
Que a humanidade unirá, num amor eterno.
1933.08.04 -Lisboa
1 - Este poema e o seguinte foram escritos nas paredes da prisão de Belém.
********
Saüdação (1)
Ao meu Pai no dia do seu 57º aniversário natalício,
como prova de verdadeiro amôr dedica intencionalmente seu filho
José Gilberto
Angra do Heroísmo, 25-11-933
.
Eu o saúdo, oh pai! meu santo procriador.
Cá de longe encarcerado por vil vingança;
D'insana gente que do mal nunca se cança.
Entre muros aqui prostrado, sinto por si dolôr.
.
Neste dia qual seu natal, insigne educadôr,
Sinto que minh'alma voando, p'ra si avança.
Vencendo mil obstaculos na luta se lança.
E que dá, chegando a si, um abraço cheio de dôr.
.
De dôr por ver que os homens frios de maldade
E sem ter a noção do que seja a consciência:
Privam seus semelhantes da justa liberdade!
.
Que rindo prazenteiramente à penitência;
Submetem os que na luta pela igualdade;
Lógicamente tem a sua interferencia!
1 -Primeiro de três sonetos escritos na prisão, em Angra do Heroísmo, em 1933.11.25, a caminho do Campo de Concentração do Tarrafal
.
No céu as nuvens em densa atmosfera,
premendo" os montes, o horizonte, a vida,
á mais angustiante, funesta e deprimida
das existências que nos dilacera.
.
No chão o lixo - que vergonhoso era! -
em pó, em ossos, em erva ressequida,
medrando a esmo, como enlouquecida
fecundação de torpe primavera.
.
Por fauna, aves negras e guerreiras
de garra adunca e bicos de morder,
só rapinando em lutas traiçoeiras.
.
Por flora apenas, ainda por crescer,
quase mortais, raquíticas purgueiras ...
e nada mais que se pudesse ver. (1)
.
1 - No outro dia, véspera da anunciada chegada do "Guiné" em que embarcaríamos com destino ás nossas terras, passámos o tempo a passear - eu e os meus dois companheiros de saída antecipada - circundando as proximidades do Campo para além das zonas nossas conhecidas, isto é, a zona das pedreiras, bem como do lado oposto, a da praia do Chão Bom, onde fomos fazer uma última despedida aos nossos camaradas que ficavam no cemitério do Tarrafal. A sensação que me ficou desse passeio foi tão triste e desoladora pelo que vimos de miséria nos raros sítios habitados pelos indígenas naquela faixa da ilha que, ainda hoje evocando a desolação da vida daquelas gentes, a pobreza dos quase buracos em que habitavam e das refeições cozinhadas ao ar livre sobre simulacros de fogo alimentado com bosta seca colhida pelos caminhos, o seu muito sofrimento que se imprimira no meu espírito durante aqueles anos vividos em amarga aridez, traduzi nestes versos.
Mãe
À querida Maria Rita
no dia 8 de Dezembro de 1965
do seu
Zé Gilberto
.
Nome imortal e belo só o teu
Pelos filhos que acarinhaste com amor;
Não fora tão terrena a tua dor,
Por certo o teu lugar era no céu.
.
Quanta ternura na alma lhe nasceu
Daquele instante em que, revelador,
Ouviste o primeiro nome, num tremor,
Que aos lábios do teu filho ascendeu!
.
Quanto paixão retrai pela atmosfera ...
Quanto cuidado e quanta hesitação
São para ti um bem em cada hora!
.
Não tens limites em dedicação,
Não tem tamanho a tua dor se chora
Mas cabes dentro do meu coração!
.
Depósito de Presos do Forte de Caxias - 8 Dezembro 1965
.
*****
Óptica
.
Às minhas queridas filhas
Rosa Maria e Maria Margarida
no Natal de 1965
.
O pai amigo
Zé Gilberto
.
Alegres, sempre ver-vos, eu quisera;
Sorrindo para a vida sem ter peias,
Tornando como belas, coisas feias,
Como se eterna fosse a primavera.
.
Brindar-vos com o mundo - ah! quem me dera!
Fadas, anões e mágicas sereias,
Estrelas a brilhar e luas cheias
- Se vos pudesse dar que bom que era!
.
Pobre poeta, tonto como os velhos!
Não vês que é demis tudo o que queres?!
O que lhes podes dar são só conselhos!
.
Olha! Repara bem! São já mulheres.
As prendas que preparem são espelhos,
Brincos, colares, cravos, mamequeres ...
.
Depósito de Presos do Forte de Caxias - Dezembro 1965
.
Resistir
.
.
Milhares de noites, já. Mais de cem meses.
Vida parada há quase dez anos ...
Anseios de viver sonhos humanos
a recalcar em vão todas as vezes.
.
Por mais que ao teu passado ainda prezes,
ó alma ressequida em mil enganos!
sofre o presente de amargores insanos
no cális da amargura até ás fezes.
.
Sorve o presente, ó alma!, ó ser minúsculo!
sorve que assim não ficarás perdida,
para sempre e só, nas sombras do crepúsculo.
.
Aguarda o sol que vem, pela manhã,
ungir a terra de calor e vida
que a sua luz, ó alma! é tua irmã.
.
Lisboa, Abril de 1984 ( 1)
1 - Escrito no final da estadia no Campo de Concentração do Tarrafal.
******
O verdadeiro e sério militante
Não é quem quer ou diz fadado
Mas sim quem na verdade é dedicado
E tem de dar á luta vigor constante
.
Tem de saber viver cada instante
Sem vacilar num mundo inacabado
Não pode ser apenas revoltado
Das injustiças que vê a cada instante
.
Tem de saber medir as posições
Do certo e do incerto no combate
E não falar apenas aos corações
.
Tem de aferir cada resultado
Tem de dominar todas as paixões
Sem pretender ser mais que um soldado.
******
Quero, quero só o que já não tenho
O tempo que passou em mau proveito
Dêm-mo que com ele eu cá me ajeito
Com ele e só com ele eu cá me amanho.
.
Se de arrependido me contenho
Sem bater com a mão no meu peito
Talvez ainda seja um bom sujeito
Pois sem muito vigor eu me mantenho.
.
Não chorarei o tempo já perdido
Nem quero o tempo a voltar para trás
Chorar só chora quem está vencido.
.
Só quero mostrar que ainda sou capaz
De renascer p'rá vida decidido
A fazer frente ao tempo como rapaz.
.
Fotografia por Victor Nogueira
.
Sobre Gilberto de Oliveira ver Kant_O_XimPi, Junho 14, 2007
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Convívio de Outono - Extra

.
Salve! indomável Exército Vermelho
glória dos trabalhadores
unidos em todo o mundo
no combate contra o mal,
que altivamente, sem ódio,
mas sem quartel,
cavaste um fosso profundo
entre o passado e o futuro.
Fosso rasgado com aço ...
... aço temperado no fogo da luta!
Aço que fere e mata ...
Aço que cria ...
... que cria as flores vivas
de uma nova Primavera ...
... a Primavera das flores da Vida!
.
Campo de Concentração do Tarrafal
Novembro de 1944 ( 1)
.
__________
1 - Poema dedicado ao Exército Vermelho, no aniversário da Revolução Russa, em Novembro de 1944, poema que depois foi lido, quase declamado, pelo Alberto de Araújo, durante uma festa que então realizámos. Nesse poema era glorificado o Exército Vermelho e sobretudo a resistência organizada e espontânea do povo soviético á penetração territorial das hordas fascistas. Dele, que se me varreu da memória quase por completo, só consigo recordar com muito pouca segurança o passo final, aqui transcrito.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Convívio das Quadras - Extra (2)

Não vejo aquilo que olho
Porque uma sombra o encerra
Se um alfarrábio desfolho
Nada diz mas muito berra.
Cego, por certo, não estou
Vendo luz à minha volta
Daqui para ali pois que vou
Sentindo o diabo à solta.
Devo ter a visão vesga
Pois que grande esforço faço
Para ver só uma nesga
No brilho dum grande espaço.
Nada é pior do que ter
Uma visão desfocada
Nunca se fica a saber
De onde vem a pancada.
ilustração - Pedro de Souza
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
2 Poemas de Gilberto de Oliveira, que foi meu amigo e prisioneiro no Campo da Morte Lenta - Tarrafal
.
Vinte e seis dias já, há quasi já um mez.
Que vim para este templo de pensamento.
E o tempo, oh! ... maldito passa lento;
Olhando p'ra mim, com super altivez.
.
Mas não julgues que com isto burguesia
Meu espírito fica amedrontado.
Pois me sinto 'inda mais revoltado.
Por desvendar aqui , a tua hipocrisia..
É com a prisão burguês, que te defendes?
Do operário que quer a liberdade!?
Sim, é isso certamente, o que pretendes.
.
Mas vêde bem, oh burgueza sociedade
O povo já sabe que por base só tendes
A infâmia, a fraude, a falcidade.
,
1933.08.03
Lisboa (1)
.
À Burguesia
.
Oh vil burguesia, imérita velha traiçoeira.
Com teus vestidos, de rapariga, jovem atraente.
Consegues iludir do povo, ainda alguma gente.
Que inconsciente vai caindo na tua ratoeira.
.
E como qual réptil, na sombra vais rastejando.
Sem cantar vitória, pois te dentes já moribunda.
Sim é agora o teu fim, oh sociedade imunda.
É a invencível morte, que p'ra ti vai avançando.
.
E representada, a tua morte é, p'lo fascismo,
Consequência única, do fim do teu império..
E então darás lugar, eternamente, ao Leninismo.
.
A esse ideal puro e justo sem vitupério;
Que edificará na terra, p'ra sempre o Socialismo;
Que a humanidade unirá, num amor eterno.
.
1933.08.04 - Lisboa
.
.
Cessem teus males, oh sociedade viciosa!
Que só da fraude vives, do engano e da maldade.
Tuas armas são: uma a taberna perigosa;
A igreja, antro d'hipocrisia e falsidade;
.
E a outra é o prostíbulo, casa venenosa.
Só com isto te sustentas, maldita sociedade.
Cantando o divulgarei para toda a gente.
Se para isso me ajudar o povo consciente.
.
1933.08.06 - Lisboa
.
_______________
1 - Este poema e os dois seguintes foram escritos nas paredes da prisão de Belém.
sábado, 8 de setembro de 2007
O cão Bobi
Bobi, era esse o seu nome
o cão amigo dos presos do Tarrafal
Por estes ele era estimado
Mas pelos guardas mal tratado
e por eles assassinado
.
Fora do Campo Bobi foi ferido
pelas balas traiçoeiras do José Maria
Ensanguentado no Campo se refugiou
Pelos seus amigos presos foi tratado
e por eles igualmente acarinhado
.
E se raiva Bobi já sentia
pelos guardas seus inimigos figadais
Rosnando, mostrava os dentes então
Pronto a morder quem tentasse
tirar lhe a vida á traição.
.
Mas o seu destino estava traçado
e o fascismo não perdoa, nem sequer a um animal
e tal como os seus amigos presos,
também ele, Bobi, foi uma vítima
do Campo de Concentração do Tarrafal.
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
No campo da morte lenta - TARRAFAL -

No céu as nuvens em densa atmosfera,
“premendo" os montes, o horizonte, a vida,
á mais angustiante, funesta e deprimida
das existências que nos dilacera.
No chão o lixo - que vergonhoso era! -
em pó, em ossos, em erva ressequida,
medrando a esmo, como enlouquecida
fecundação de torpe primavera.
Por fauna, aves negras e guerreiras
de garra adunca e bicos de morder,
só rapinando em lutas traiçoeiras.
Por flora apenas, ainda por crescer,
quase mortais, raquíticas purgueiras ...
e nada mais que se pudesse ver. (1)
1 - No outro dia, véspera da anunciada chegada do "Guiné" em que embarcaríamos com destino ás nossas terras, passámos o tempo a passear - eu e os meus dois companheiros de saída antecipada - circundando as proximidades do Campo para além das zonas nossas conhecidas, isto é, a zona das pedreiras, bem como do lado oposto, a da praia do Chão Bom, onde fomos fazer uma última despedida aos nossos camaradas que ficavam no cemitério do Tarrafal. A sensação que me ficou desse passeio foi tão triste e desoladora pelo que vimos de miséria nos raros sítios habitados pelos indígenas naquela faixa da ilha que, ainda hoje evocando a desolação da vida daquelas gentes, a pobreza dos quase buracos em que habitavam e das refeições cozinhadas ao ar livre sobre simulacros de fogo alimentado com bosta seca colhida pelos caminhos, o seu muito sofrimento que se imprimira no meu espírito durante aqueles anos vividos em amarga aridez, traduzi nestes versos.
A norte da mesma aldeia, fica um tristemente célebre campo de concentração, onde eram encerrados os inimigos políticos do regime ditatorial de Salazar. Este local era denominado por Colónia Penal do Tarrafal, tendo sido para lá enviados os primeiros prisioneiros (157) a 29 de Outubro de 1936, tendo lá falecido cerca de 40 detidos. O primeiro a falecer foi Pedro de Matos Filipe em 20 de Setembro de 1937. Foi encerrada em 1954, tendo sido reaberta em 1961, especialmente vocacionada para presos políticos africanos.
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Marteladas Sinistras
* Gilberto de Oliveira
Mais marteladas sinistras ...
... ecos de morte na noite
no Vale da Achada Grande ...
mais um caixão se fazia,
pois outro preso morria.
.
Quando algum não urinava
por biliosa fatal,
era a morte que rondava
os presos do Tarrafal.
As próprias vítimas presas,
com a dor no coração,
socorriam se das mesas
fazendo mais um caixão.
.
Na mágoa que a noite cobria
p'las marteladas ouvidas,
nenhum preso ali dormia ...
... angústia e dor repetidas.
.
Noite e dia acompanhado
pelos companheiros de então,
por turnos era velado
até sair o caixão.
.
Mais uma mesa faltava,
Mais uma cruz de cimento,
Mais um preso que afirmava
no cemitério local
o combate tão cruento
dos vivos do Tarrafal.
.
.
Breve Biografia:posted by Daniel Melo @ 11:29 AM
.
.


