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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Convívio do Tempo ... Extra (23) - Poesia de Gilberto de Oliveira




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* Gilberto de Oliveira
(n. 1915 - + )


A Minha Resposta

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Vinte e seis dias já, há quasi já um mez.
Que vim para este templo de pensamento.
E o tempo, oh! ... maldito passa lento;
Olhando p'ra mim, com super altivez.

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Mas não julgues que com isto burguesia
Meu espírito fica amedrontado.
Pois me sinto 'inda mais revoltado.
Por desvendar aqui , a tua hipocrisia.

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É com a prisão burguês, que te defendes?
Do operário que quer a liberdade!?
Sim, é isso certamente, o que pretendes.

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Mas vêde bem, oh burgueza sociedade
O povo já sabe que por base só tendes
A infâmia, a fraude, a falcidade.

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1933.08.03 -Lisboa (1)


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À Burguesia

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Oh vil burguesia, imérita velha traiçoeira.
Com teus vestidos, de rapariga, jovem atraente.
Consegues iludir do povo, ainda alguma gente.
Que inconsciente vai caindo na tua ratoeira.

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E como qual réptil, na sombra vais rastejando.
Sem cantar vitória, pois te dentes já moribunda.
Sim é agora o teu fim, oh sociedade imunda.
É a invencível morte, que p'ra ti vai avançando.

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E representada, a tua morte é, p'lo fascismo,
Consequência única, do fim do teu império.
E então darás lugar, eternamente, ao Leninismo.

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A esse ideal puro e justo sem vitupério;
Que edificará na terra, p'ra sempre o Socialismo;
Que a humanidade unirá, num amor eterno.


1933.08.04 -Lisboa

1 - Este poema e o seguinte foram escritos nas paredes da prisão de Belém.

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Saüdação (1)

Ao meu Pai no dia do seu 57º aniversário natalício,
como prova de verdadeiro amôr dedica intencionalmente seu filho

José Gilberto
Angra do Heroísmo, 25-11-933

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Eu o saúdo, oh pai! meu santo procriador.
Cá de longe encarcerado por vil vingança;
D'insana gente que do mal nunca se cança.
Entre muros aqui prostrado, sinto por si dolôr.

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Neste dia qual seu natal, insigne educadôr,
Sinto que minh'alma voando, p'ra si avança.
Vencendo mil obstaculos na luta se lança.
E que dá, chegando a si, um abraço cheio de dôr.

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De dôr por ver que os homens frios de maldade
E sem ter a noção do que seja a consciência:
Privam seus semelhantes da justa liberdade!

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Que rindo prazenteiramente à penitência;
Submetem os que na luta pela igualdade;
Lógicamente tem a sua interferencia!


1 -Primeiro de três sonetos escritos na prisão, em Angra do Heroísmo, em 1933.11.25, a caminho do Campo de Concentração do Tarrafal


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No céu as nuvens em densa atmosfera,
premendo" os montes, o horizonte, a vida,
á mais angustiante, funesta e deprimida
das existências que nos dilacera.

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No chão o lixo - que vergonhoso era! -
em pó, em ossos, em erva ressequida,
medrando a esmo, como enlouquecida
fecundação de torpe primavera.

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Por fauna, aves negras e guerreiras
de garra adunca e bicos de morder,
só rapinando em lutas traiçoeiras.

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Por flora apenas, ainda por crescer,
quase mortais, raquíticas purgueiras ...
e nada mais que se pudesse ver. (1)

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1 - No outro dia, véspera da anunciada chegada do "Guiné" em que embarcaríamos com destino ás nossas terras, passámos o tempo a passear - eu e os meus dois companheiros de saída antecipada - circundando as proximidades do Campo para além das zonas nossas conhecidas, isto é, a zona das pedreiras, bem como do lado oposto, a da praia do Chão Bom, onde fomos fazer uma última despedida aos nossos camaradas que ficavam no cemitério do Tarrafal. A sensação que me ficou desse passeio foi tão triste e desoladora pelo que vimos de miséria nos raros sítios habitados pelos indígenas naquela faixa da ilha que, ainda hoje evocando a desolação da vida daquelas gentes, a pobreza dos quase buracos em que habitavam e das refeições cozinhadas ao ar livre sobre simulacros de fogo alimentado com bosta seca colhida pelos caminhos, o seu muito sofrimento que se imprimira no meu espírito durante aqueles anos vividos em amarga aridez, traduzi nestes versos.

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Mãe


À querida Maria Rita
no dia 8 de Dezembro de 1965
do seu
Zé Gilberto

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Nome imortal e belo só o teu
Pelos filhos que acarinhaste com amor;
Não fora tão terrena a tua dor,
Por certo o teu lugar era no céu.

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Quanta ternura na alma lhe nasceu
Daquele instante em que, revelador,
Ouviste o primeiro nome, num tremor,
Que aos lábios do teu filho ascendeu!

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Quanto paixão retrai pela atmosfera ...
Quanto cuidado e quanta hesitação
São para ti um bem em cada hora!

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Não tens limites em dedicação,
Não tem tamanho a tua dor se chora
Mas cabes dentro do meu coração!

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Depósito de Presos do Forte de Caxias - 8 Dezembro 1965

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Óptica

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Às minhas queridas filhas
Rosa Maria e Maria Margarida
no Natal de 1965

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O pai amigo
Zé Gilberto

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Alegres, sempre ver-vos, eu quisera;
Sorrindo para a vida sem ter peias,
Tornando como belas, coisas feias,
Como se eterna fosse a primavera.

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Brindar-vos com o mundo - ah! quem me dera!
Fadas, anões e mágicas sereias,
Estrelas a brilhar e luas cheias
- Se vos pudesse dar que bom que era!

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Pobre poeta, tonto como os velhos!
Não vês que é demis tudo o que queres?!
O que lhes podes dar são só conselhos!

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Olha! Repara bem! São já mulheres.
As prendas que preparem são espelhos,
Brincos, colares, cravos, mamequeres ...


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Depósito de Presos do Forte de Caxias - Dezembro 1965


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Resistir

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Milhares de noites, já. Mais de cem meses.
Vida parada há quase dez anos ...
Anseios de viver sonhos humanos
a recalcar em vão todas as vezes.
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Por mais que ao teu passado ainda prezes,
ó alma ressequida em mil enganos!
sofre o presente de amargores insanos
no cális da amargura até ás fezes.

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Sorve o presente, ó alma!, ó ser minúsculo!
sorve que assim não ficarás perdida,
para sempre e só, nas sombras do crepúsculo.

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Aguarda o sol que vem, pela manhã,
ungir a terra de calor e vida
que a sua luz, ó alma! é tua irmã.

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Lisboa, Abril de 1984 ( 1)


1 - Escrito no final da estadia no Campo de Concentração do Tarrafal.


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O verdadeiro e sério militante
Não é quem quer ou diz fadado
Mas sim quem na verdade é dedicado
E tem de dar á luta vigor constante

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Tem de saber viver cada instante
Sem vacilar num mundo inacabado
Não pode ser apenas revoltado
Das injustiças que vê a cada instante

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Tem de saber medir as posições
Do certo e do incerto no combate
E não falar apenas aos corações

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Tem de aferir cada resultado
Tem de dominar todas as paixões
Sem pretender ser mais que um soldado.



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Quero, quero só o que já não tenho
O tempo que passou em mau proveito
Dêm-mo que com ele eu cá me ajeito
Com ele e só com ele eu cá me amanho.

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Se de arrependido me contenho
Sem bater com a mão no meu peito
Talvez ainda seja um bom sujeito
Pois sem muito vigor eu me mantenho.

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Não chorarei o tempo já perdido
Nem quero o tempo a voltar para trás
Chorar só chora quem está vencido.

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Só quero mostrar que ainda sou capaz
De renascer p'rá vida decidido
A fazer frente ao tempo como rapaz.

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Fotografia por Victor Nogueira

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Sobre Gilberto de Oliveira ver Kant_O_XimPi, Junho 14, 2007

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1 comentário:

poesianopopular disse...

Victor
Não conhecia a bela poesia do Gilberto de Oliveira!
Como é fácil notar nela todo o valor e humildade, de um homem que apesar de amargurado consegue expressar-se com tamanha dignidade!É mais um dos meus, dos teus, dos nossos, do Mundo!
Victor bem hajas, por nos dares a conhecer este POETA.
Um abraço
José Manangão