Viva a Vida !

Este blog destina-se aos meus amigos e conhecidos assim como aos visitantes que nele queiram colaborar..... «Olá, Diga Bom Dia com Alegria, Boa Tarde, sem Alarde, Boa Noite, sem Açoite ! E Viva a Vida, com Humor / Amor, Alegria e Fantasia» ! Ah ! E não esquecer alguns trocos para os gastos (Victor Nogueira) ..... «Nada do que é humano me é estranho» (Terêncio)....«Aprender, Aprender Sempre !» (Lenine)
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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Margarida Piloto Garcia - Obsessões

Boa tarde. 

Não, não é um poema, nem sequer uma prosa poética. É apenas um mini-conto em simples prosa para quem tiver paciência para algo ligeiramente misterioso. 
smile emoticon


Obsessões

Um...inspiração, dois, três...inspiração. Não, não! Volta ao início, desta vez sem se esquecer de inspirar na segunda contagem. Segue depois o ritual preciso e metódico do banho diário. Dez minutos para fazer a barba, uso de uma toalha imaculadamente branca, água a jorrar forte e impetuosa de um moderno chuveiro, temperatura testada com o termómetro. Irrita-se com o pequeno vinco que nota na camisa azul. Aquele pormenor retira-lhe a concentração para continuar a vestir-se como faz todos os dias. Uma veia salienta-se na testa alta, enquanto um ligeiro tremor lhe crispa os lábios. Tenta ignorar e seguir em frente. A gravata tem duas pequenas listas que distam uma da outra, um centímetro cuidadosamente medido. De uma certa maneira, saber disso traz-lhe a paz que a descoberta daquele pequeno vinco lhe tirou.
Não gosta particularmente do caminho até ao escritório. Não pode controlar o trânsito e assola-o sempre uma incerteza que o atordoa. Aquele dia parece mexer-lhe com os sentidos e desacertar-lhe os mecanismos oleados com que mede a vida. Olha repetidamente para as horas marcadas no carro, na esperança de que o tempo do trajecto não exceda o normal. 
E de repente algo lhe subverte a rotina e ameaça transtornar. O sinal vermelho num semáforo fá-lo ficar parado ao lado de um carro azul. Lá dentro uma mulher de cabelo negro olha-o com um sorriso. Repara no batom vermelho, único sinal de maquilhagem no rosto branco. Desvia o olhar, irritado com o sorriso que ela lhe deita. Por causa disso, a noção do tempo torna-se diferente e o semáforo que conhece de cor, parece-lhe distorcer os minutos que faltam para passar de vermelho a verde. Olha de novo para a mulher e agora o sorriso dela parece ter-se estendido até aos olhos. São azuis, quase da cor do carro, e parecem anzóis a serem lançados. E o sinal não muda e ele quer mas não consegue deixar de olhar para o lado. Quando finalmente arranca, tem um fio fino e penetrante de suor a escorrer-lhe pela têmpora direita. O relógio mostra que o tempo de chegada será respeitado mas a ele tudo lhe parece deturpado. 
O dia no escritório corre num nervosismo inexplicável. Aquele acontecimento, não sabe explicar porquê, minou-lhe o dia e fez com que as suas defesas de algum modo se diluíssem e o tornassem inseguro. Não consegue esquecer o sorriso que de algum modo sentiu predatório e o destabilizou.
No dia seguinte refaz todos os passos desde que acorda. Desta vez a camisa está imaculada e de algum modo esse facto transmite-lhe uma paz profunda. Dentro de si instala-se a certeza de que o dia vai correr bem e que as rodas dentadas do mecanismo onde encerrou a vida, vão girar sem entraves. No entanto, à medida que faz o percurso habitual, sente que as pulsações se aceleram. Tenta negar este facto mas sabe, bem lá no fundo, que é a chegada ao semáforo da véspera que o indispõe. E finalmente chega o momento. Desta vez tem um carro à sua frente. Não sabe se há-de ou não olhar para o lado e essa incerteza é irritante. Precisa de controlar todos os aspectos da sua vida e não pode ficar à mercê de imprevistos. Resolve olhar e o carro azul não está lá. Porque deveria estar? Afinal até ao dia anterior nunca tinha dado por ele. Antes de arrancar apercebe-se de que o carro está atrás de si. 
O sinal fica verde e ele é obrigado a seguir o fluxo de trânsito sem poder ver quem nele segue. 
O dia é passado numa espécie de inferno . O pensamento no sorriso que não viu, faz com que almoce dez minutos mais tarde e desarrume a secretária numa imprecisão que detesta. 
Novo dia. Agora todos os processos apesar de seguidos não o sossegam. A obsessão centra-se algures num semáforo que a mente antecipa. Já há um medo palpável que a língua saboreia, um travo metálico ao sangue que galopa nas veias. Desta vez fica em primeiro, pronto a arrancar assim que o sinal mude. Ao lado, um carro preto com um homem de óculos que o olha com desconfiança. Atrás de si, num pequeno carro, uma mulher loura vê-se ao espelho. Um certo desespero tolda-o e sente que a roupa se lhe pega ao corpo. Subitamente a mulher do cabelo negro e lábios vermelhos, atravessa a passadeira. O sorriso que lhe deita é devastador. Por momentos deixa de pensar como se tudo se ausentasse dele e o mundo parasse. Um monumental coro de buzinadelas acorda-o do torpor. Ficou parado e o monstruoso trânsito gritou-lhe a sua indignação. 
No trabalho não consegue concentrar-se. Tenta por diversas vezes arrumar o pensamento mas todos aqueles desacertos lhe parecem burlescos e demoníacos. Contra tudo aquilo em que acredita, vai mais cedo para casa, mas até essa mudança de hábitos lhe acirra a mente.

No dia seguinte não consegue fazer as suas inspirações. Mal dormiu mas precisa de se arranjar e sair. Resolve apanhar um táxi e seguir até à zona do famigerado semáforo. Sai e fica junto dele enquanto o corpo treme como que a ressacar um vício. Durante um certo tempo observa rigorosamente todos os carros que ali passam, todas as pessoas que atravessam a passadeira. Nada!

Não consegue ir trabalhar e apanha outro táxi de volta a casa. Toma novo duche. A água não saiu como gosta e a temperatura parece-lhe demasiado quente. Não consegue comer. A garganta parece ter dentro uma garra a apertar cada vez mais. Não entende o que se passa com ele e sente a vida desmoronar. Toma dois comprimidos e adormece com a esperança de que tudo não passe de um pesadelo.

Um...inspiração, dois...inspiração, três...inspiração. No dia seguinte tudo parece estar a correr certo. O duche, a camisa, a gravata, tudo segue os normais parâmetros da sua vida. 

No trânsito surge o fatídico semáforo. Não vê a mulher do carro azul. A angústia e o medo começam lentamente a invadir-lhe os poros. Olha desesperadamente para o relógio em busca de refúgio. Encontra nele um pouco de paz enquanto o semáforo lhe indica que pode avançar. 

Entra no escritório com passos lentos e contados. Pensa que vai superar aquela obsessão que tão terrivelmente o assolou. Precisa de paz para lidar com o novo cliente que a firma lhe designou e que vai conhecer hoje. Entra na sua sala impecavelmente arrumada. 

Sentada na cadeira de couro branco, a mulher de cabelo negro e lábios vermelhos, sorri-lhe implacável. 

© Margarida Piloto Garcia.

( todos os direitos reservados ao abrigo do código do direito de autor)

Foto da net. Desconheço o autor. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

susana garcia ferreira - a menina anjo





tenham uma boa noite queridos(as amigas /os . bjs e abracinhos. 

A menina anjo

Num lindo dia nasceu uma menina que a sua mãe e quem a viu nascer sabiam que era um anjo .que tinha nascido naquela pequena vila um ser especial. Poucos sabiam que era anjo mesmo quando foi crescendo pois não tinha asas. A sua pele não era tão branca e não tinha cabelos doirados como os anjos . Mas era um sim no seu interior . Em pequena a sua mãe quando era altura das festas da terra ou no carnaval fazia questão de fazer os mais lindos fatos de anjo e de vestir a sua menina com eles porque sabia que o era alem de ser linda. Havia até outras meninas que tinham inveja da sua enorme beleza. A sua mãe também por brincadeiras da filha dizia muitas vezes que ela tinha asas nos pés além de claro as ter no coração.quando podia ir brincar depois da escola . Era num instante que a menina desaparecia a correr pelo meio dos campos como gostava com os cabelos ao vento. Quer estivesse sol ou tudo enlameado. Os bichinhos também se juntavam a ela pois já sabiam a que horas aparecia e a menina adorava estar com eles . Das flores sentia o seu aroma mas não as apanhava apenas tirava frutos das árvores dos pais . Quando se cansava deitava se a sombra dos pinheiros e de outras grandes árvores ou adormecia no celeiro junto com os seus bichinhos. No verão gostava de ir ate ao rio quando a sua mãe ia lavar naquelas aguas a roupa . Enquanto lavava a menina tomava umas banhocas . Dava mergulhos era muito divertido outras vezes ia com o seu pai para o ver pescar mas ai ficava triste porque não queria que fizessem mal aos peixinhos mas o seu pai la lhe explicou e menina entendeu. O inverno la pela sua terra era muito rigoroso e a menina não podia fazer as suas brincadeiras mas ficava no seu quarto a inventar histórias e a olhar pela janela a ver a neve a cair da serra como flocos de algodão mesmo nesse tempo frio tinha bichinhos que ficavam consigo em casa e dormiam consigo e olhavam tb pela janela com a menina. Foi crescendo mas continua a ser um anjo . A menina anjo dos seus Pais . Um anjo que nem todos sabem que o é mas quem sabe . Quem o sentiu e sente . Sabe que a partir daquele dia aquela terra foi abençoada por aquele ser tão especial . Um lindo anjinho 

Escrito a 27-10-2014
Susana Garcia Ferreira
 


terça-feira, 20 de agosto de 2013

jorgete teixxeira - take one





Take one



A cama era toda a casa.

O amor estendia-se no chão, demoradamente. Amavam-se contra as paredes, fuzilados pela submissão a um querer demolidor e insano, em cima das mesas em antropofagia desatinada, em equilíbrio difícil sobre os móveis, nos parapeitos das janelas, em corrimões inventados.
Amavam-se quando a saudade de si próprios, no enlaçar dos corpos, lhes era insuportável e os espelhos dos olhos embaciavam na ausência do outro.
No início tinham o sol nos olhos e a urgência nas mãos. As horas derramavam-se e derretiam-se como relógios de Dali, entorpecendo os corpos, para os fazer entrar em convulsões de fogo e chuva, estendidos em lençóis de magma e de cetim…
A cama estendia-se aos recantos encobertos, aos alpendres e jardins, a praias onde a sinfonia dos astros emudecia e se afogava dentro das bocas túrgidas.
E na melodia que faziam ao amar-se assim, é que nasciam as fontes onde se saciava a poesia. Era ao som da orquestra da pele, bocas, lábios, espadas e rosas que se desfazia o medo e as madrugadas nasciam limpas e novamente puras. E o céu refulgia de cometas por inventar. Não havia fronteiras, nem esteios e a bússola eram os dedos em constante descoberta. 


jorgete teixeira



quarta-feira, 31 de julho de 2013

um texto de susana garcia




Conheceram-se numa festa, ela tinha filhas mas não viviam nessa altura em casa e já se tinha divorciado fazia alguns anos e o homem que conheceu tinha igualmente filhos mas estavam ambos na mesma situação.

Tinha amigas na festa no entanto estava sozinha e aquele homem que a fez delirar, pensava ela que seria amigo de uma das amigas que por lá andava,no entanto já não se lembrava.

A festa estava a ser boa, as travessas iam girando cheias de aperitivos, tapas, camarões,tudo o que havia de melhor, pois era uma festa de luxo,estilo cocktail, os copos também iam rodopiando à sua volta.


Maria, vestia um vestido vermelho que lhe dava um ar elegante e tinha um colar de ouro, calçava também uns sapatos de salto alto,tudo escolhido na companhia da sua mãe para aquela festa tão especial, que não se esperava ter o desfecho que acabou por acontecer.

Depois de tão boas iguarias e de muita conversa, foi servido o prato principal, todos se deliciaram, comeram e beberam bem até que a música começou a tocar.

José assim era o seu nome, como bom dançarino começou a dançar pelo palco e Maria ficou encantada, deixando-se enfeitiçar por aquela dança contudo deixou-se ficar sentada apenas a observar e a sentir a música,até que ele veio ao seu encontro pegou na sua mão e a levou para o palco ao mesmo tempo que se ia ouvindo uma valsa.

Dançaram e triunfaram deixando todos os convidados abismados a olhar para os seus passos.

A música parou, deu-se a hora de comer a sobremesa e da abertura do bolo da anfitriã da festa. Maria , via flutes de champanhe a girar, a rodopiar juntamente com as fatias de bolo, que eram distribuidas por todos os convidados, já só pensava em José e ele nela e na dança,no palco. 

Quando tudo acabou, novamente a música começou a tocar e como foi longa, e novamente José a levou para dançar desta vez um tango.

Dançaram sem parar naquela noite que parecia não ter fim, mas o inesperado aconteceu e ainda se encontravam presentes alguns convidados, num dos passos mais sensual, José beijou Maria ,para grande espanto de todos, no entanto tudo continuou até que se deram conta que estavam sozinhos naquela casa, naquela sala imensa.

Pararam, e subiram para um quarto, Maria despiu-se e ficou apenas com a sua lingerie de renda vermelha, José também se despiu e envolveram os seus corpos, beijaram-se vezes sem conta, fizeram amor, tudo durou algumas horas.

Vestiram-se ,mas sairam dali de onde tudo começou, decidiram ir até um bar, pediram mais uns copos, conversaram e acabaram por sair de mãos dadas ,mas não foram para casa, não voltaram mais aquela casa , contudo quem sabe não terão ficado juntos desde aquele momento no palco da vida....

Susana Ferreira



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Um conto de Jorgete Teixeira



Segunda-feira 





Os sorrisos dançavam-lhe em pontas pelo corpo e de vez em quando pousavam-lhe nas mãos e aí ficavam ao sol. 

O velho professor de filosofia já não leccionava. Morava com o gato Mefistófeles, os livros e a sua escrita.

Numas águas furtadas que davam sobre o largo, inventava histórias com as gentes que passavam em baixo. Olhava-as, escolhia-as e fazia com que chegassem à sua janela, depois adormecia-as e roubava-lhes as vidas, refazendo histórias de amor…Gostava especialmente de misturar pares impossíveis, velhos decrépitos e jovens ladinas, mulheres gordas e grandes com homens pinguins, senhoras elegantes e vagabundos…

Raramente saía, a mulher-a-dias tratava-lhe das compras essenciais…apenas havia uma saída que fazia com gosto: de vez em quando ia à livraria na outra rua, para fazer uma visita aos livros. Sentava-se num cadeirão ao fundo e entrava nas narrativas dos outros. A menina do balcão via-o muitas vezes levantar voo e sair com as letras atrás, sabe-se lá para onde… mas voltava sempre…umas vezes de semblante triste, outras com um sorriso de lua em noites de verão…

O resto do tempo levava-o a navegar na Internet e foi aí que a conheceu. Ela deslumbrou-se com a sua sabedoria, com os seus versos de fina filigrana e provocava-o com a sua frescura. Ele defendia-se como podia, mas sabia, no fundo, que não conseguiria resistir ao apelo.

Os dias passaram a não ter as horas todas. Sentava-se à janela, como de costume, mas as pessoas eram agora traços de lápis que pisavam a calçada em riscos sem sentido e deixou de lhes fantasiar amores. O coração sabia apenas “aquela” hora e nos minutos antes a angústia era pedra em briga com a sua esperança. Quando ela aparecia no monitor com a luzinha verde atrás, o coração dele perfumava-se e entrava na volúpia das palavras…

Agredia-o a juventude dela, a foto do perfil mostrava-a numa pose ameninada mas o decote beijava-lhe um colo generoso. Desarmava-o o seu linguarejar ligeiro e um pouco fútil, porém sentia-a frágil, nas bravatas que contava. Quis encolher-se como gota de chuva indecisa, mas ela não pareceu importar-se com o seu cabelo prateado e a pele um pouco amarfanhada.

O corpo dela passou a inquietar o seu sono que cobiçava lascívias, abandonando um redondo de doçura na aspereza da sua pele solitária. As palavras eram lençóis de lava onde o corpo dele entontecia e nunca mais voou atrás das letras… 


Maria jorgete teixeira


  • Victor Nogueira Os livros têm os olhos que nós temos e os seus lábios os nossos lábios. Porque se as letras dos livros tivessem olhos e lábios e mãos e dedos seriam talvez pessoas mas nunca e apenas carreirinhas de letras bem comportadas. Bjos. Maria Jorgete Teixeira