Viva a Vida !

Este blog destina-se aos meus amigos e conhecidos assim como aos visitantes que nele queiram colaborar..... «Olá, Diga Bom Dia com Alegria, Boa Tarde, sem Alarde, Boa Noite, sem Açoite ! E Viva a Vida, com Humor / Amor, Alegria e Fantasia» ! Ah ! E não esquecer alguns trocos para os gastos (Victor Nogueira) ..... «Nada do que é humano me é estranho» (Terêncio)....«Aprender, Aprender Sempre !» (Lenine)
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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

sílvia mendonça - DEPRESSÃO NÃO É FRESCURA

DEPRESSÃO NÃO É FRESCURA
Por Silvia Mendonça.

Hoje não dormi. A insônia tem se tornado uma companhia constante - às vezes, agradável; às vezes, assustadora. Não tenho controle dos pensamentos, que, feito salteadores, tomam o meu cérebro e o torturam. Não tenho controle dos sentimentos, o que não é nenhuma novidade, bipolar que sou. Porém, conheço o meu "mal" de perto: a gangorra pende para baixo e a depressão vai se instalando. Um pouco mais abaixo, vi uma postagem de Moacir Elcio Beretafalando sobre esse tema, a necessidade de conhecê-lo e tratá-lo. Eu disse, em artigo: "Depressão não é frescura", isola e abate a pessoa, causa pena ao contrário de compaixão - e só entende quem tem ou teve. Cada um dói de si, lembram-se? Dor a gente não mede nem compara. Dor a gente sente. 

E por que nos deprimimos? Qual a causa da depressão? Há várias teorias explicativas para o aparecimento da depressão. Mas, apesar da vasta investigação desenvolvida, persistem dúvidas relativamente à origem. Atualmente, a depressão é referida como uma doença multifactorial: traduzindo, com várias causas envolvidas no seu aparecimento. Ou, só Deus sabe! Algumas teorias referem uma explicação genética e estudos feitos com gêmeos monozigóticos demonstram a existência de uma tendência familiar. No entanto, não é claro como é feita a transmissão genética. São igualmente importantes as causas físicas, como o desequilíbrio hormonal, certas patologias (neurológicas, infecciosas ou oncológicas) ou alguns medicamentos, que tem como efeitos depressões secundárias. 

Outras, denominadas psicodinâmicas, dão maior importância às relações dos doentes com o meio e, em particular, com os pais/educadores ao longo do seu desenvolvimento. Os fatores sociais, por outro lado, como a vulnerabilidade das classes sociais baixas, as relações interpessoais pobres (muito comum nas redes sociais), o desemprego, uma perda familiar importante ou um acontecimento traumático podem também estar na sua origem.

A tecnologia proporcionou um conhecimento vasto das alterações morfológicas e do funcionamento do cérebro do doente deprimido. São estes desequilíbrios que estão na base do tratamento farmacológico atual, com antidepressivos. Hoje, sabe-se que as principais moléculas em causa no cérebro depressivo são os seguintes neurotransmissores: noradrenalia, serotonina e dopamina.6. Os neurotransmissores permitem a comunicação entre as principais células nervosas - os neurónios - sendo a falta destes neurotransmissores que origina o quadro de depressão. 

Agora me diga: essas explicações satisfizeram você, que esta no fundo do poço, por, principalmente não saber lidar com suas perdas? A mim, não! Claro que este é o quadro clínico da depressão. E o humano? Tratamento medicamentoso existem, os laboratórios agradecem a escolha do produto, mas a terapia, componente essencial, não. Se for se tratar pelo SUS, prepare-se para entrar em uma longa fila de espera. E, qualquer médico sério vai te dizer: a medicação é apenas suporte; a terapia, é essencial. Diante disso, você fica mais deprimido. 

Natal e Ano Novo são duas datas que deprimem qualquer "cristão". Mais do que quando seu time perde, seu companheiro te deixa em um momento em que você esta cheio de amor para dar. Falta tudo: dinheiro, (às vezes, emprego), família, amigos, sinceridade, boa vontade, caridade - e sobra depressão. Orar, meditar, jogar flores para Yansã, seguir todas essas superstições natalinas e de entrada pode ajudar; pode ser divertido. Porém, tenha em mente: depressão é considerada uma doença séria. Não a subestime!

Quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Silvia Mendonça.
 


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

silvia mendonça - nada é eterno, tudo é efémero


Nada é eterno, tudo é efêmero!


Alguém discorda dessa máxima? Efemeridades podem se tornar eternos? Um momento de felicidade, uma busca por um eternidade que sabemos pode jamais existir. Mesmo assim, continuamos tentando nos tornarmos eternos. Nos últimos dias, "vadiando" pela minha página, criada em 2009, revi um passado relâmpago; declarações de amores para sempre, amizades "forever". E entendi que perder-me de muitos nesse meio caminho não tem a ver com eternidade. As pessoas simplesmente se vão, mesmo "jurando" que nunca te abandonarão. A página "explode" em cinco mil amigos, no limite, e é a tua cabeça que rola. Quando achamos que estamos aprendendo a viver na Matrix vem um mal caráter e puxa o nosso tapete. Mesquinhez, inveja, hipocrisia, mentira, agressão misturam-se, em um imenso caldeirão, com besteirol, humor, figurinhas, corações, flores, poemas, música. Democrático, esse Facebook. Diabólico e santo, também. Às vezes me pergunto, por que voltei. Não foi apenas por ter recuperado a página. Foi, principalmente, pelos amigos. Porém, os antigos, com raras exceções, continuam engrossando a lista de 4958 membros (e eu gostaria de saber onde estão). E pelos novos, ainda em processo de conquista, vale voltar. Nos vemos amanhã.

Uma ótima noite!
Beijos de mim!
Silvia Mendonça.

[Foto: Hanna Brescia in Pictures]

sábado, 27 de julho de 2013

uma crónica de Amélia Martins


Eu não sei em que nome de santo se vende aquilo ali. A amiga da minha amiga até o referiu , mas eu esqueci logo. Acho que não, que é outra coisa, mas a amiga da minha amiga vê santos em tudo.
Não! São Associações, olhe a saca: Hortas jovens etc. e tal....
Seja o que for já vou cansada de sacos a abarrotar de produtos da horta...
Quer d. Maria ? (é a minha amiga)....
Não queria nada, a amiga dela também não...
É pró santo...
deixo lá, faz de conta...
Foi barato, dez euros com o chouriço caseiro de boa qualidade, ou se não for, faz-se de conta...
Logo vou a sua casa (a dona Maria é a que bate à porta três vezes que é o código dela) bate três vezes se eu não abrir à primeira...
Dez euros tudo que eram nove, e eu quis os pepinos por causa do troco...
Deixe o troco, levo os pepinos...
Nem um pepino ou assim d. Maria? (até me aliviava o peso)
É pró santo...raisparta o santo!!!!... são as hortas, são associações, dez euros isto tudo... 
Por este dinheiro não faço hortas
Também não sei fazer hortas, ainda se fosse umas costuras...
Azar mesmo foi passar com os sacos a abarrotar pelo homem do supermercado, eu cliente habitual, ele simpático
Olhe, não olhe...sei que tem aí disto tudo, não me peça fatura, você não é polícia, vá-se queixar ao santo...!!!
Nada (dizem eles) de vendedores ambulantes, só com fatura, tudo com factura!!!...ou faz de conta...
ufa, ufa,..que estou cansada de sacos a abarrotar de produtos hortícolas, sem fatura, vão-se queixar ao santo...ufa, ufa...!!!
E a d. Maria nem quis um pepino, logo vem a minha casa e bate três vezes se eu não abrir à primeira..
E se tocar três vezes e eu não abrir é porque não estou em casa...
Ou faço de conta...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Antunes Ferreira - Cheira a Lisboa

A minha Travessa do Ferreira

SEXTA-FEIRA, 26 DE JULHO DE 2013

.... 

SONS & TONS

Cheira a Lisboa

Antunes Ferreira
Creio que toda a malta sabe que adoro o fado. Com os meus 16/17 aninhos até o cantei, na TOCA do grandíssimo Carlos Ramos (que achava que eu tinha jeitinho…); recordo-me – como o podia esquecer?... de ele me ter convidado a acompanha-lo no Não venhas tarde, o que fiz, carregado de nervoso miudinho… que, mal soaram a guitarra e a viola me passou sem grande esforço.

O meu saudoso Pai, também Henrique Ferreira fechava os olhos, piedosamente, a esses arrobos de juventude; porém a Dona Glória, minha Mãe, que administrava a justiça lá em casa, com sentenças à base da colher de pau, tirou-me o pio. Disse que eu tinha sim de estudar. Penso que dessediktat resultou a perda de uma carreira para a música portuguesa que se antevia plena de sucesso…

Daí que hoje me permita inundar este blogue; não me contento com uma, mas dez interpretações, inclusive de estrangeiros, com um fado-canção (?), melhor dizendo uma marcha (?), ou outra coisa mais, o que para o caso nem interessa, porque cheira a Lisboa. Exactamente, o Cheira a Lisboa. Melodias portuguesas que se tenham tornado universais há poucas. Coimbra e Uma Casa Portuguesacorreram mundo com êxitos assinaláveis e assinalados. E, de novo, com o Cheira Bem, Cheira a Lisboa o sucesso repetiu-se. Cantaram-na e cantam desde a grande Amália Rodrigues, passando pela popularíssima Anita Guerreiro e, nos dias de hoje, uma das fadistas mais bonita a Ana Moura

É, na verdade, um caso sério de popularidade que andou e anda por tudo o que é sítio. Não posso deixar de referir aqui que a minha querida Gatonamiga administradora (COE) e directora-geral do blogue Felina (felinaa.blogspot.pt) me deu uma colaboração simpatiquíssima como sempre, ao autorizar-me o uso da versão cirílica. Nestas coisas, um pouco de reconhecimento nunca fez, nem faz, nem fará (se fosse o Palha “ocupas” do palácio de Belém seriafaçará…) mal a ninguém…

Num momento de crise e de autoridade, ops, austeridade (a primeira também é verdadeira, até com uns laivos de salazarismo!) faz-nos bem ao ego saber que uma canção portuguesa atingiu uma dimensão que não é vulgar, muito antes pelo contrário. Que se lixe a troika, diz o Povo, o tal que cheirava mal dos pés e dos sovacos, como se dizia no tempo da outra senhora ou seja o enfatuado e simultaneamente criminoso Estado Novo. Diz e muito bem, que o mesmo é dizer com inteira razão. Não obstante ser ela e a Frau Merkel quem mandam neste pobre Portugal, temos de nos orgulhar com o Cheira a Lisboa e orgulharmo-nos de ser Portugueses. Valha-nos isso, porque isto está tão mal…



 



 


 



 



 






 



NE - Esta é mais uma nova secção que hoje começamos a publicar. Se quiserem fazer o favor de me dizerem em comentários o que pensam dela, muito obrigado. Os que não gostam do fado (Património Imaterial da Humanidade) podem dizer mal; podem e... devem. Os meus agradecimentos

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Maria Amélia Martins - O "Alemão" (2)


Não sei se todos os loucos gostam de gatos, ou se são os gatos, que se sentem bem com eles, o que acaba por ser a mesma coisa...nem sei tampouco se o "Alemão" é louco!!!

Tanto quanto percebi da sua mistura de portugues alemão e gestos, ele, a viver em Portugal desde 1991, vivia e consumia drogas injetáveis, a julgar pelos gestos do arregaçar de mangas, pegar no braço e com dois dedos ir empurrando uma suposta seringa para a veia...depois o semblante de euforia e relaxamento, o tremelicar, bem real daí resultante e o esforço de vida acabada antes do tempo...Depois o ficar ali o dia inteiro, a olhar a igreja, a sua grandiosidade, os sinos e todas as artes que lhe conhece, o entra e sai de fés e tradições. Ali permanece, agora sentado no banco, onde pousa a esfarrapada mochila de transporte da comida dos gatos e o pacote da cartão de vinho quando (raramente) larga das mãos. Mas o banco não interessa, interessa aquele lugar, o mesmo de sempre, quando antes habitava uma casa abandonada que entrou em obras e ele teve de sair e saiu. E por ali ficou.."está em obras" justificava a quem passava a razão porque saiu, como quem pede desculpa por ter saído....e teve logo ali o banco que o acolheu ,mas se assim não fosse sentar-se-ia não noutro mas naquele chão, punha a mochila no chão, e o pacote vinho quando o largasse, e igualmente do chão contemplaria da mesma forma a igreja e o povo que entra e sai....

E os gatos? não, os gatos não vivem ali com ele, esperam-no noutra casa abandonada para onde se desloca á noite, mochila ás costas com a comida de gato. "Comida só de compra" conforme me explica com gestos. Porque os portugueses não são de confiança...deram-lhe restos com espinhas e mataram o Félix!!!....mataram o Félix e isso não podia ter acontecido. Não podia!!! e o "Alemão" tem gestos de sobra para explicar a sua indignação, a sua dor, angustia e revolta. Mas tambem resignação. Por ser quem é, pelos tres gatos que restam e precisam dele...

Sim, porque o "Alemão" está cada dia mais magro, pode passar (bem) tres dias sem comer!!!......( não sem beber , mas isso é outra estória)...mas os seus tres gatos tem de comer...e comem...que isso se vê atraves dos buracos da mochila. E os gatos aguardam em casa, confiantes que o louco os ama!

Maria Amélia Martins o texto é meu sim obg. por gostarem. É o segundo texto que escrevo sobre aquele mendigo que existe mesmo, com quem eu ás vezes falo e que me inspira. Verdade Egas, concordo absolutamente, basta conhecer alguns mendigos

terça-feira, 17 de julho de 2012

Antunes Ferreira - Conversas de funeral


DOMINGO, 27 DE MAIO DE 2012


NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS
A minha Travessa do Ferreira
Conversas de funeral

Antunes Ferreira
Dois jazigos enormes ladeiam a entrada do cemitério do Alto de São João. Enormes e trabalhados, sendo que o da esquerda para quem entra é uma mistura de pseudos: gótico, manuelino e barroco, parente espúrio de qualquer deles. Pelo resto afastado do campo-santo abundam outros, com mais mármore ou com mais lioz a fingir daquele. Há ruas – a denominação é mesmo essa – pejadas dos sarcófagos mais rebuscados, há campas que ostentam as mesmas pedras. O conservadorismo reina de mãos dadas com o tradicionalismo.

Há, porém, no meio da floresta pétrea, uma nota modernizante: o crematório, que ostenta na fachada interior um solene e perfilado CREMATORIUM. Predomina o metal, pintado a vermelho escuro a cair para o castanho de igual tonalidade, avulta o vidro amplo que contradiz as fenestras estreitas dos edifícios mortuários que o circulam e que lhes dão o esconso das coisas vesgas.

Os administradores de cemitério, nome atualizado dos coveiros, estas denominações de caráter profissional são, por vezes, difíceis de entender, um contínuo nos dias de hoje é auxiliar administrativo, um almeida aspira a ser agente de manutenção da limpeza pública, ainda não é, mas lá chegará, a criada passou a empregada doméstica, os gestores de cadáveres gostam do forno, não suja as mãos, não cansa o antiquado cavador camarário. Modernices. Mas é prática muito mais higiénica e muito mais lucrativa para as agências funerárias.

Cheiro a esturro...
Juvenal está defronte do incinerador, entre um estendal de coroas e ramos de flores, com as respetivas fitas à memória do Jaime Santos Reboredo, dos colegas de trabalho da Fábrica de Parafusos de Montemor, (alias Xuan Giping local da verdadeira produção, RPC), para o meu saudoso marido e pai extremoso, com a mágoa da Ermelinda, do Francisco, do Manuel e da Rita. Não haverá campa que as acolha, Juliano fica apensar para onde irão, ainda que já um tanto murchas.

O jovem é amigo de um primo da cunhada do falecido e por via disso, foi ao funeral, depois de passar ao de leve, pelo velório. Nem sequer conhecia o de cujus, os juristas usam o termo erudito, latinório mas de significado um tanto misterioso para os leigos, porém a irmã da viúva é figura importante do partido que governa, técnica superior da Função Pública e ele é apenas um trabalhador da Administração, operador de computação, no antecedente dactilógrafo, mais a mais em princípio da carreira.

Portanto, diga-se em abono da verdade, a cara de sofrimento contido que arvora nada tem a ver com o corpo que o caixão sem metais encerra. Pensa, no entanto, que devia ser bom homem, bom chefe de família e benfiquista – no tempo da outra senhora dizia-se que um dos atributos decorria do outro – pois a bandeira dos encarnados, continua a dizer-se assim, nesses anos da ditadura vermelhos eram os comunistas, cobrira o féretro até à chegada ao forno.

Um padre encomenda o cavalheiro, enaltecendo as muitas qualidades que tinha, incluindo a de bom cristão, temente a Deus e de prática religiosa, mas igualmente excelente líder do agregado familiar, abnegado trabalhador e cidadão cumpridor de todas as obrigações. O sacerdote fala português, mas com um acento espanholado, su família diz, e vê-se que está apressado, outros quefazeres o chamam, quem sabe um batizado, a vida é uma sucessão imparável.

No entanto, adita Juvenal, quando uma criança nasce começa a contagem decrescente para a morte. Ouviu a afirmação da boca do Dr. Aurélio, o seu diretor, e guardou-a a sete chaves nas meninges, porque é muito boa. Já o Carinhas, companheiro dos copos (não muito exagerados), conta a estória do sujeito que mandou fazer justamente um jazigo em forma de mulher jacente, cuja entrada se processava entre as pernas dela, arqueadas. Com um letreiro gravado: «O bom filho à casa torna». Gostos.

... tipo Fernando Mendes, mas careca
É neste preciso momento que um assistente gordo que usa suspensórios por baixo do casaco como o Fernando Mendas, mas sem cabelo, porque abusa de uma careca reluzente, lhe pergunta se é o filho do Januário Manteigas, pois que é muito parecido com ele. Sou, para ser mais correto sou o órfão dele, o meu nome é Juvenal Rosmaninho Manteigas, Rosmaninho é da minha mãe que felizmente ainda está viva, com boa cabeça e boa vista, só um bocadinho a atirar para surda, mas pouco.

Folgo muito, responde o perguntador, o seu pai e eu fomos da direção do Sporting de Vila Seca, ficámos muito amigos, não sabia do seu falecimento, os meus mais sentidos pêsames extensivos à Senhora sua mãe, se bem me recordo a Dona Adelina. Isso mesmo, sem tirar nem pôr, já agora agradecia que me dissesse o seu nome para lhe comunicar este encontro, o Mundo é realmente muito pequeno, cabe na palma da mão, os Espanhóis dizem el Mundo es un pañuelo, um lenço, compreende?

O confabulador avança com um já o seu pai era um apreciador do castelhano e, sobretudo das castelhanas, ainda que uma parte delas fosse espanholas de Carcavelos. Riram-se os dois, da pilhéria, e de dentro do edifício veio um varão engravatado que lhes disse para falarem mais baixo e deixarem-se de risos, o sacerdote ainda estava a perorar e as pessoas não só se distraíam como não sabiam a quem deviam ouvir. Pedem desculpa, não se tinham dado conta do dueto a duas vozes, emendam-se já.

No tempo das repúblicas
      Para que não haja mais atropelos ou advertências afastam-se para o portão da entrada, aqui já não molestam ninguém. O senhor faz agulha para outros carris, isto de nuestras hermanaslembra-lhe sempre que estudou em Coimbra, viveu na Praquistão, uma Real República com uma ganda pinta. E havia uma criada a Mercedes, badajoziana, feia como os trovões mas com um corpo de sereia, que à noite, à convocatória dos alunos, hoje vens dormir comigo, respondia, plácida e conformada, mas sem muito salero «Señor doutor llevo el saco del pan enfiado en minha cabeza o lo dejo aquí?». Olha cachopa, traz o saco mas vem despidinha, que o que é bom é pra se ver…, o que ela cumpria religiosamente.

      Moderam o riso para sotto vocce. Amigo, posso trata-lo assim?, por quem é, amigos dos nossos pais nossos amigos são, aqui tem o meu cartão de visita. Emanuel Sarzedas Inácio, um criado às suas ordens. E por baixo do nome alinha-se em cursivo bonito e centrado, Jurista e Professor. Juvenal não quer ficar atrás, mas não traz cartões, não é desculpa é falta de cuidado, porém escreve nas costas de um papel do Multibanco, depois de riscar o montante do pagamento na outra face, o nome e os restantes dados.
   
Curioso o encontro e o paleio. De novo acontece a mudança de rumo, o prior vai ainda predicando em luso castelhanês, que coincidência, cá fora a falarem de castanholas e lá dentro a discursar um cantaor. E Juvenal, ainda hoje li num jornal que a Igreja Católica não se opõe à cremação, mas «proíbe» aos seus fiéis de deitar as cinzas do corpo humano à terra, ao mar ou ao vento, defendendo ser essencial conservá-las «com dignidade». E o local mais indicado, de acordo com a agência Lusa, e segundo o novo Ritual para a Celebração das Exéquias da Conferência Episcopal Portuguesa, será «um nicho ou um columbário». O senhor doutor sabe o que é um columbário? O causídico também não sabe.

A urna a caminho do forno
Acabou a encomendação, já entrou a urna no forno, e vai-se afastando o pessoal depois de cumprimentar a família, sentidos pêsames, é a única coisa que temos certa na vida, conformação, é nestes dias que nos encontramos, já não nos víamos há um ror de tempo, melhor seria em casamento do que em exéquias, mas a vida é madrasta. O jurista Inácio tem, ainda, algo para dizer, não é um pleito mas é apenas um episódio, dizem que verdadeiro, sabe-se lá.

Juvenal, que já dera corda às sapatilhas, sustem o ímpeto, venha a estória. Saiba você que nos meus tempos de Coimbra se contava que dois alunos à porta co cemitério e a altas horas da noite comentavam em tom pouco respeitoso o falecimento de um catedrático que, em breves palavras, teria sido uma besta e um salafrário, um biltre, um pulha, um vampiro.

E logo saíra um desafio: o que o malandro merecia era que lhe enterrassem uma estaca na tumba, remédio santo para quem quer ser um Drácula de trazer por casa. Eu ia lá, mas está escuro. Aposto que não eras capaz. Era sim senhor. E logo contrataram cinquenta mil réis, que, na altura era dinheiro, um copo de três valia cinco tostões, uma sopa de nabiças chegava aos oito.

Na noite seguinte, ei-los de volta, com a acha e o martelo necessários para o efeito. Um ficou à porta do sepulcrário, o outro saltou o muro. Passaram-se uns minutos e o aventureiro não voltara ainda. Mas que raio estará o gajo a fazer? Meia hora e nicles. Se calhar já saiu pelo lado de trás, vou mas é para a cama, já são duas da matina, amanhã falo com ele.

Todavia não falou. Porque de manhã, quando o cemitério foi aberto, deram com ele mortíssimo, junta à campa do Professor, com uma estaca enterrada no chão, mas com a capa da batina presa pelo pau. A autópsia resultara em ataque cardíaco fulminante. O tipo não resistira ao que devia ter pensado que era o sacana do mestre que o havia filado.

Eu não sou o infante...
Juvenal vai apanhar o autocarro, mas o jurídico não permite, ele dá-lhe boleia, por favor não se incomode, é um pulinho e hoje há menos trânsito, o preço da gasolina está no alto, a crise. Nada, nada, foi um prazer mútuo terem-se conhecido, então deixa-me por favor na Picheleira, já a caminho das Olaias, vou dar a novidade à minha mãe, ela há de gostar, pela certa que sim. Do nosso encontro, é claro. Não senhor Doutor, da estaca no túmulo, ela pela-se por filmes de terror, não perde um na televisão. Só depois virá o nosso descobrimento. Eu não sou o Infante Dom Henrique.


 

domingo, 15 de julho de 2012

Maria Amélia Martins - O "Alemão"


O "Alemão" falava sózinho como sempre faz...mas quando cheguei perto, vi que hoje o "Alemão" falava e comovia-se...se virmos o Alemão comovido não precisamos de lhe perguntar nada, ou melhor, nunca precisamos de perguntar nada ao "Alemão"..basta que nos aproximemos devagar que ele pára o que estava a falar e pergunta: fala alemão? não?... então continua o que estava a falar... mas agora com muitos gestos para que a gente o perceba...E à pronuncia alemã, ele junta os gestos, hoje de comoção e revolta, para me explicar, porque foi que o Félix morreu...e abria a sua própria boca, onde introduzia uma das mãos, como quem arranca de lá uma coisa...UMA ESPINHA!!!...e o "Alemão" abana a cabeça, comove-se, revolta-se, acusa!!!...acusa os comportamentos todos, dos portugueses todos, que deixam uma espinha na comida de um gato!!!...

-Uma espinha parece-me pouco, para quem tem "sete vidas" mas ele vai falando, vai fazendo gestos..gestos de sangue a sair pela boca, pelo anus, gestos de carinho e dor pelo Félix, duma noite em claro pelo gato, de gatas, no chão com o Félix e mais tres...pede-me um euro e fica a rodá-lo nos dedos, finalmente sorri e exclama: D´VINCI...(o Leonardo), esse e a igreja junto da qual vive desde 1991, a igreja espiritual, o banco onde se senta e os tres gatos que restam, porque o Félix, esse, morreu hoje...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Maria Jorgete Teixeira - Está sol mas não o sinto...

por Maria Jorgete Teixeira a Domingo, 1 de Julho de 2012 às 19:31 ·
Está sol mas não o sinto. Um teto de nuvens entrou pelas janelas semi abertas. Baixou e tomou conta do ar, que absorveu, e por isso abro a boca como um peixe fora do aquário... tento sobreviver agarrada às paredes, escorrego e fico estrebuchando no chão. Corvos entram e ensurdecem-me com o seu  grasnar, que não suporto , quanto mais tento afastá-los mais nascem , tomam conta de tudo, gritam e rodopiam, gritam e rodopiam...

Atiro  palavras contra a cal branca e elas voltam repetidas mas prenhes  de água, tão cheias que me arrastam pelas ruas. Vou caindo e rolando, a mim se juntam folhas ressequidas, pétalas sem cor, pedras, troncos…

A caminho do cais já não sou eu, mas sou a terra e o mar, o ar e o fogo que ainda em mim queima, teimosamente…

Ninguém sabe da tempestade, nem das corolas arrancadas, nem das aves que gritavam…
Só eu…

mjt.. 


“Esperança”, de George Frederic Watts

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ana Porfírio - Talvez cartas de amor - o princípio


r Ana Porfirio a Quinta-feira, 21 de Junho de 2012 às 15:29 ·


Não sei como não te vi antes, como falei contigo horas a fio sem perceber que o som da tua voz é firme e seguro e que sussurrado aos ouvidos é como uma música secreta, não sei as vezes que te olhei nos olhos sem nunca ver que tem tons diferentes quando sorris, quando está sol, quando o dia se turva, cores como cascas de árvores, com mais ou menos folhagens verdes reflectidas, tons de mel quente na doçura em que por vezes me olhas, como nunca percebi que o teu franzir de testa é engraçado, como os gestos quando falas de coisas que te entusiasmam, não sei como no fundo te vi sem nunca te ver o que vejo hoje, a suavidade secreta da pele, o calor do teu sorriso, a forma como me tocas, quase como se eu fosse um instrumento musical, que fazes vibrar em tons graves ou agudos, não sei como nunca percebi que acertamos o passo, da mesma forma que acertamos os gestos, as opiniões, os lábios e os abraços, como nunca vi que era a curva do teu peito o local ideal para apoiar a minha cabeça, não sei como escondeste o teu sabor secreto e salgado, não sei como nunca percebi que dentro de ti estavas tu e que agora te vejo com clarividência das cegueiras inevitáveis.

domingo, 13 de maio de 2012

Antunes Ferreira - Altitudes e atitudes


Mais um texto completamente louco assinado por um tal Antunes Ferreira: Altitude e atitude. Que vai desde o montanhismo e o alpinismo até ao Peak de Hong Kong e do Zolpidem para dormir até à sopa Tom Yam, passando pelos ascensores e elevadores de todos os tamanhos, qualidades e feitios. De fazer vertigens, mesmo para quem as não tenha. O bicho está cada vez pior e ninguém se responsabiliza por ele. Nem nos perdidos e achados de uma qualquer transportadora aérea se pode descobrir coisa igual. É um caso absolutamente perdido.
Dão-se alvissaras a quem não o encontrar.


Henrique Antunes Ferreira 

LINHASTORTAS

Altitudes e atitudes

Antunes Ferreira
Alpinismo é um montanhismo mais aristocrata. Os praticantes pouco diferem, são as mesmas botas de pitons aguçados nas solas, são os mesmos casacos térmicos, são os mesmos machados-martelos, são os mesmos gorros, são os mesmos óculos de lentes escuras, são as mesmas cordas de nylon, mas são diferentes as encostas para escalar. Enquanto os montanistas conquistam uns picos mais modestos, os alpinistas atingem patamares muito mais elevados e mais íngremes.

A dicotomia é, se calhar, um preciosismo que os conquistadores das altitudes considerarão um verdadeiro pleonasmo vertical com esta comparação. Mas, o escriba desde já exara em declaração formal em papel oficial, ainda que sem assinatura reconhecida por notário, que o mais alto que logrou foi o último andar de um prédio com pretensões a arranha-céus, ali aos Olivais e mesmo assim ficou com tonturas só porque o proprietário, aliás excelente chefe de família lhe propôs ir à varanda. O imóvel tinha oito andares.

Santa Justa? Nem um pé...
Figueiredo também tinha vertigens, denominação mais elevada pois se tratava de subidas mesmo que de ascensor, e não o escondia a quem quer que fosse. Tudo o que passasse de um terceiro andar a Santos era um perigo a que não se arriscava, por mais garantias de segurança que lhe fossem dadas. Nos elevadores encolhia-se num canto e tentava camaleonar-se com os espelhos que existiam nos mais idosos. No de Santa Justa nunca pusera um pé, muito menos os dois, podia chegar-se lá acima junto ao concento do Carmo por rua, de piso asfaltado, uma beleza e sem tonturas. De táxi, ainda melhor, não fosse a crise e a austeridade concomitante.

De uma vez, quando fora com a mulher a Macau, por ele ter ganho o primeiro prémio de um concurso da associação de trabalhadores de companhias aéreas, excluindo as low cost, passara as passas do rio das Pérolas, que as do Algarve estavam a muitos quilómetros de distância. Para ser o escriba mais consentâneo com a verdade, fora a Zulmira quem tirara a senha miraculosa, já que ela é que contava para o efeito, era contabilista de uma empresa de catering de uma das companhias.

Mulher de uma cana, a cara-metade. Logo na Portela demonstrara que o era. Depois de ultrapassados com distinção o chek-in e a moldura de segurança, apenas chegados à sala de embarque da porta G 19 enfiara-lhe pela boca abaixo dois comprimidos de Zolpidem que o levaram ao sonho antes de a aeronave descolar. Na escala, meio abananado, fora ela ainda que o encaminhara para a nova manga do aeroporto de partida e lhe repetira a dose, já não se recordava ele bem, mas pensava que aumentada pelo menos em cinquenta por cento.

Bons sonhos
O que quer significar que em Hong Kong fora uma trabalheira para o acordar, bem se tinham esforçado uma assistente de bordo, vulgo hospedeira e um comissário para o levantar da cadeira, até descobrirem que ainda tinha o cinto de segurança que a amantíssima esposa lhe apertara à partida. Depois, no jet-foil para Macau já não havia os problemas das alturas e das correspondentes tremuras e nem um simples Valium lhe fora concedido. A humanidade anda cada vez mais em baixo e quanto a solidariedade nem é bom falar.

No antigo território sob administração, esperava-os um senhor chinês que falava um poltuguês muito alanhado, simpático, de óculos de aros do tipo carapaça de tartaruga, que entre muitos sorrisos (ou solisos) os transportou, em viatura da empresa, ao hotel, que era um mastodonte de quarenta e muitos andares. Na receção foi o cabo dos trabalhos, os primeiros pisos eram restaurantes, ginásios, salas de musculatura, bares, jogos, salões de massagens e outros entretenimentos similares. Jovens simpáticas exibiam os teclados bucais a torto e a direito. E prometiam mais.

A Zulmira, puxando de todo o seu Inglês do curso em DVD daSunset School, explicou que o marido não era dado às alturas e porque torna e porque deixa e rebéubéu pardais ao ninho e, pasme-se, conseguiu que a menina chinesa, ali toda a gente tinha os olhos em bico, curiosa coincidência, lhes arranjasse um quarto no quarto andar precisamente, com vista para a piscina. No ascensor número 6 encontravam-se dois cavalheiros pelo aspeto chineses que prosseguiram depois de o casal ter saído. O que achara mais estranho: não eram amarelos, contrariamente ao que se dizia. Voltou a vê-los, sempre os mesmos e depois disseram-lhe que jogavam às sortes com os botões que se acendiam na cabina… O jogo, sempre o jogo num casino-ascensor.

A instalação revelou-se excelente, a piscina igualmente e as miúdas de biquíni ou menos que a frequentavam eram da mesma qualidade. Três dias, pensão completa, só com o álcool para pagar, caso o encomendassem, obviamente, era o Paraíso à borla. Nessa noite jantaram no segundo andar, em restaurante coreano, se quisessem sentados no chão, de pernas cruzadas, mas ele preferira à mesa, com um pequeno forno no meio do tampo. Não soube o Figueiredo o que comera, mas era a modos de como quem diz, porém não exatamente.

Subindo o Peak em Hong Kong
No dia seguinte voltaram a Hong Kong tal como o programa previa. Apanharam o elevador e foram ao Peak, mais uns momentos de ansiedade, aquilo era altote, e decidiram dar umas voltas, comprar uns Rolex autênticos e certificados, a Zulmira quase batia as palmas de contente, os relógios eram baratíssimos, o que era para ela, dourado, luzia-lhe no pulso, já não o tirara, outro era para o Figueiredo, aliás Janeca, de João. E uns quantos mais para os filhos, os compadres do Alandroal e outros destinatários, incluindo, naturalmente, o senhor fiscal da ASAE que morava no primeiro andar esquerdo, logo por cima do deles e que era cunhado do Martins dono do Restaurante O Marítimo que nunca fora multado, apesar de dizerem cobras e lagartos da limpeza, do armazém e das casas de banho. Acontece.

Nessa noite, foram degustar comida tailandesa, o restaurante, especializado em peixe e mariscos era no piso menos zero, intermédio entre o rés-do-chão e o primeiro, e as jovens serviam de joelhos, estranho costume, em frente das mesas havia uns pequenos fossos por onde elas se deslocavam, nada que se compare aos do estádio dos lagartos, ele era do Glorioso, não precisavam desses obstáculos lá na catedral, à qual o seu padrinho de casamento, portuense e portista dum carago, chamava capelinha, quem o fornicasse. Mas, as prendas de aniversários e natais e quejandos contavam muito e face ao Sr. Dr. Mendes, chefe de serviços no Ministério das Finanças, tudo se tinha de engolir, até os epítetos anti-benfiquistas.

Tom Yam com todos...
Veio uma sopa Tom Yam, o menu desta feita apresentava-se também em inglês, além dos gatafunhos banguecoquianos, e a Excelentíssima Esposa traduziu logo que era a sopa tailandesa, a perspicácia e a desenvoltura da Zulmira eram um espanto, tracinho sopa de camarão. A terrina não era exatamente um primor da Vista Alegra, antes semelhava forma para bolos ou pudins, com uma pequena chaminé ao centro.

A primeira colherada foi um desastre; porra!, era picante pra burro, como diria a Mara cabeleireira, importada diretamente de Tamanduá. Nem pensar. Chamaram a empregada e a dedicada consorte foi-lhe dizendo que tinha muita pimenta ou piripiri ou lá o que fosse. A jovem arqueou as sobrancelhas e não percebeu patavina. E a Zulmira, iu, misse, mademuázele, andersetande? Não andersetia. E foi um senhor, aliás muito bem-posto, de uma mesa ao lado que explicou à servidora o cerne da questão. Sorriso recatado e gentil, ela levou os pratos.

O excelso cavalheiro apresentou-se, ainda que não tivesse feito o mesmo em relação à dama que o acompanhava, mulheraça de perna cheia e decote até aos joelhos que, por acaso nem tinha ar de que fosse casada com ele, mas, para o caso não interessava. Para outros casos e outras ocasiões, fora do radar zulmiresco, haveria de interessar, mas, assim, nestes preparos, Janeca apenas podia apreciar a coxa dela tostadinha através de racha estratégica na saia. Se ela usasse sutiã, nem lhe teria sabido a marca, mas na verdade não trazia qualquer apêndice nas glândulas mamárias.

Tailandeso...
Era engenheiro de maquinaria pesada, o Figueiredo logo pensou que a acompanhante garbosa era mesmo da pesada, tinha o gabinete em São Pedro do Estoril, viera a um congresso e estava tudo explicado. Não, tudo não, a rapariga que os servia era um raparigo. Espanto, mas não parecia nada, elas e eles são pequeninos, jeitosinhos, informou o senhor engenheiro, mas aquele era mesmo um sucedâneo de macho, ressalvadas as aparências. E sempre acrescentou que as hospedeiras do avião da Thay podiam se perfeitamente hospedeiros transexuais. Ffffff, bufou o Figueiredo para quem homem era homem, mulher era mulher e ponto. E a Zulmira, vê lá o que dizes, esta gente pode entender os palavrões portugueses, modera-te. Ele apenas bufara, de desprezo, ficou-se pelo fffff.

No fim de uns pratos muito mais suaves, sófetes no dizer do da pesada, sobremesa, chá e uísque, oferta dele, uma noite daquelas era para recordar e comemorar; deixou-lhes o número do telemóvel de Portugal, despediu-se e seguiu maila acompanhante e ondulante. A Zulmira não se conteve, olha que ela é calmeirona, tu não te dás bem com as alturas, ao que ele não replicou, não parecia bem dar uma de peixeirada num restaurante – ainda que de peixe – tailandês em Macau.

Quando regressaram a Lisboa, a receita dos aero-soníferos q.b. surtiu uma vez mais o efeito desejado. Não devia haver alpinista, nem sequer montanhista, seja relevada ao escriba a falta de exatidão no concernente à terminologia, que tivessem, sequer, tentado resistir ao tratamento. Nestes casos que se prendem com as escaladas, o calado é o melhor. Ou seja, altitudes e atitudes.