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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Antunes Ferreira - Cheira a Lisboa

A minha Travessa do Ferreira

SEXTA-FEIRA, 26 DE JULHO DE 2013

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SONS & TONS

Cheira a Lisboa

Antunes Ferreira
Creio que toda a malta sabe que adoro o fado. Com os meus 16/17 aninhos até o cantei, na TOCA do grandíssimo Carlos Ramos (que achava que eu tinha jeitinho); recordo-me  como o podia esquecer?... de ele me ter convidado a acompanha-lo no Não venhas tarde, o que fiz, carregado de nervoso miudinho que, mal soaram a guitarra e a viola me passou sem grande esforço.

O meu saudoso Pai, também Henrique Ferreira fechava os olhos, piedosamente, a esses arrobos de juventude; porém a Dona Glória, minha Mãe, que administrava a justiça lá em casa, com sentenças à base da colher de pau, tirou-me o pio. Disse que eu tinha sim de estudar. Penso que dessediktat resultou a perda de uma carreira para a música portuguesa que se antevia plena de sucesso

Daí que hoje me permita inundar este blogue; não me contento com uma, mas dez interpretações, inclusive de estrangeiros, com um fado-canção (?), melhor dizendo uma marcha (?), ou outra coisa mais, o que para o caso nem interessa, porque cheira a Lisboa. Exactamente, o Cheira a Lisboa. Melodias portuguesas que se tenham tornado universais há poucas. Coimbra e Uma Casa Portuguesacorreram mundo com êxitos assinaláveis e assinalados. E, de novo, com o Cheira Bem, Cheira a Lisboa o sucesso repetiu-se. Cantaram-na e cantam desde a grande Amália Rodrigues, passando pela popularíssima Anita Guerreiro e, nos dias de hoje, uma das fadistas mais bonita a Ana Moura

É, na verdade, um caso sério de popularidade que andou e anda por tudo o que é sítio. Não posso deixar de referir aqui que a minha querida Gatonamiga administradora (COE) e directora-geral do blogue Felina (felinaa.blogspot.pt) me deu uma colaboração simpatiquíssima como sempre, ao autorizar-me o uso da versão cirílica. Nestas coisas, um pouco de reconhecimento nunca fez, nem faz, nem fará (se fosse o Palha “ocupas” do palácio de Belém seriafaçará) mal a ninguém

Num momento de crise e de autoridade, ops, austeridade (a primeira também é verdadeira, até com uns laivos de salazarismo!) faz-nos bem ao ego saber que uma canção portuguesa atingiu uma dimensão que não é vulgar, muito antes pelo contrário. Que se lixe a troika, diz o Povo, o tal que cheirava mal dos pés e dos sovacos, como se dizia no tempo da outra senhora ou seja o enfatuado e simultaneamente criminoso Estado Novo. Diz e muito bem, que o mesmo é dizer com inteira razão. Não obstante ser ela e a Frau Merkel quem mandam neste pobre Portugal, temos de nos orgulhar com o Cheira a Lisboa e orgulharmo-nos de ser Portugueses. Valha-nos isso, porque isto está tão mal



 



 


 



 



 






 



NE - Esta é mais uma nova secção que hoje começamos a publicar. Se quiserem fazer o favor de me dizerem em comentários o que pensam dela, muito obrigado. Os que não gostam do fado (Património Imaterial da Humanidade) podem dizer mal; podem e... devem. Os meus agradecimentos

domingo, 13 de maio de 2012

Antunes Ferreira - Altitudes e atitudes


Mais um texto completamente louco assinado por um tal Antunes Ferreira: Altitude e atitude. Que vai desde o montanhismo e o alpinismo até ao Peak de Hong Kong e do Zolpidem para dormir até à sopa Tom Yam, passando pelos ascensores e elevadores de todos os tamanhos, qualidades e feitios. De fazer vertigens, mesmo para quem as não tenha. O bicho está cada vez pior e ninguém se responsabiliza por ele. Nem nos perdidos e achados de uma qualquer transportadora aérea se pode descobrir coisa igual. É um caso absolutamente perdido.
Dão-se alvissaras a quem não o encontrar.


Henrique Antunes Ferreira 

LINHASTORTAS

Altitudes e atitudes

Antunes Ferreira
Alpinismo é um montanhismo mais aristocrata. Os praticantes pouco diferem, são as mesmas botas de pitons aguçados nas solas, são os mesmos casacos térmicos, são os mesmos machados-martelos, são os mesmos gorros, são os mesmos óculos de lentes escuras, são as mesmas cordas de nylon, mas são diferentes as encostas para escalar. Enquanto os montanistas conquistam uns picos mais modestos, os alpinistas atingem patamares muito mais elevados e mais íngremes.

A dicotomia é, se calhar, um preciosismo que os conquistadores das altitudes considerarão um verdadeiro pleonasmo vertical com esta comparação. Mas, o escriba desde já exara em declaração formal em papel oficial, ainda que sem assinatura reconhecida por notário, que o mais alto que logrou foi o último andar de um prédio com pretensões a arranha-céus, ali aos Olivais e mesmo assim ficou com tonturas só porque o proprietário, aliás excelente chefe de família lhe propôs ir à varanda. O imóvel tinha oito andares.

Santa Justa? Nem um pé...
Figueiredo também tinha vertigens, denominação mais elevada pois se tratava de subidas mesmo que de ascensor, e não o escondia a quem quer que fosse. Tudo o que passasse de um terceiro andar a Santos era um perigo a que não se arriscava, por mais garantias de segurança que lhe fossem dadas. Nos elevadores encolhia-se num canto e tentava camaleonar-se com os espelhos que existiam nos mais idosos. No de Santa Justa nunca pusera um pé, muito menos os dois, podia chegar-se lá acima junto ao concento do Carmo por rua, de piso asfaltado, uma beleza e sem tonturas. De táxi, ainda melhor, não fosse a crise e a austeridade concomitante.

De uma vez, quando fora com a mulher a Macau, por ele ter ganho o primeiro prémio de um concurso da associação de trabalhadores de companhias aéreas, excluindo as low cost, passara as passas do rio das Pérolas, que as do Algarve estavam a muitos quilómetros de distância. Para ser o escriba mais consentâneo com a verdade, fora a Zulmira quem tirara a senha miraculosa, já que ela é que contava para o efeito, era contabilista de uma empresa de catering de uma das companhias.

Mulher de uma cana, a cara-metade. Logo na Portela demonstrara que o era. Depois de ultrapassados com distinção o chek-in e a moldura de segurança, apenas chegados à sala de embarque da porta G 19 enfiara-lhe pela boca abaixo dois comprimidos de Zolpidem que o levaram ao sonho antes de a aeronave descolar. Na escala, meio abananado, fora ela ainda que o encaminhara para a nova manga do aeroporto de partida e lhe repetira a dose, já não se recordava ele bem, mas pensava que aumentada pelo menos em cinquenta por cento.

Bons sonhos
O que quer significar que em Hong Kong fora uma trabalheira para o acordar, bem se tinham esforçado uma assistente de bordo, vulgo hospedeira e um comissário para o levantar da cadeira, até descobrirem que ainda tinha o cinto de segurança que a amantíssima esposa lhe apertara à partida. Depois, no jet-foil para Macau já não havia os problemas das alturas e das correspondentes tremuras e nem um simples Valium lhe fora concedido. A humanidade anda cada vez mais em baixo e quanto a solidariedade nem é bom falar.

No antigo território sob administração, esperava-os um senhor chinês que falava um poltuguês muito alanhado, simpático, de óculos de aros do tipo carapaça de tartaruga, que entre muitos sorrisos (ou solisos) os transportou, em viatura da empresa, ao hotel, que era um mastodonte de quarenta e muitos andares. Na receção foi o cabo dos trabalhos, os primeiros pisos eram restaurantes, ginásios, salas de musculatura, bares, jogos, salões de massagens e outros entretenimentos similares. Jovens simpáticas exibiam os teclados bucais a torto e a direito. E prometiam mais.

A Zulmira, puxando de todo o seu Inglês do curso em DVD daSunset School, explicou que o marido não era dado às alturas e porque torna e porque deixa e rebéubéu pardais ao ninho e, pasme-se, conseguiu que a menina chinesa, ali toda a gente tinha os olhos em bico, curiosa coincidência, lhes arranjasse um quarto no quarto andar precisamente, com vista para a piscina. No ascensor número 6 encontravam-se dois cavalheiros pelo aspeto chineses que prosseguiram depois de o casal ter saído. O que achara mais estranho: não eram amarelos, contrariamente ao que se dizia. Voltou a vê-los, sempre os mesmos e depois disseram-lhe que jogavam às sortes com os botões que se acendiam na cabina… O jogo, sempre o jogo num casino-ascensor.

A instalação revelou-se excelente, a piscina igualmente e as miúdas de biquíni ou menos que a frequentavam eram da mesma qualidade. Três dias, pensão completa, só com o álcool para pagar, caso o encomendassem, obviamente, era o Paraíso à borla. Nessa noite jantaram no segundo andar, em restaurante coreano, se quisessem sentados no chão, de pernas cruzadas, mas ele preferira à mesa, com um pequeno forno no meio do tampo. Não soube o Figueiredo o que comera, mas era a modos de como quem diz, porém não exatamente.

Subindo o Peak em Hong Kong
No dia seguinte voltaram a Hong Kong tal como o programa previa. Apanharam o elevador e foram ao Peak, mais uns momentos de ansiedade, aquilo era altote, e decidiram dar umas voltas, comprar uns Rolex autênticos e certificados, a Zulmira quase batia as palmas de contente, os relógios eram baratíssimos, o que era para ela, dourado, luzia-lhe no pulso, já não o tirara, outro era para o Figueiredo, aliás Janeca, de João. E uns quantos mais para os filhos, os compadres do Alandroal e outros destinatários, incluindo, naturalmente, o senhor fiscal da ASAE que morava no primeiro andar esquerdo, logo por cima do deles e que era cunhado do Martins dono do Restaurante O Marítimo que nunca fora multado, apesar de dizerem cobras e lagartos da limpeza, do armazém e das casas de banho. Acontece.

Nessa noite, foram degustar comida tailandesa, o restaurante, especializado em peixe e mariscos era no piso menos zero, intermédio entre o rés-do-chão e o primeiro, e as jovens serviam de joelhos, estranho costume, em frente das mesas havia uns pequenos fossos por onde elas se deslocavam, nada que se compare aos do estádio dos lagartos, ele era do Glorioso, não precisavam desses obstáculos lá na catedral, à qual o seu padrinho de casamento, portuense e portista dum carago, chamava capelinha, quem o fornicasse. Mas, as prendas de aniversários e natais e quejandos contavam muito e face ao Sr. Dr. Mendes, chefe de serviços no Ministério das Finanças, tudo se tinha de engolir, até os epítetos anti-benfiquistas.

Tom Yam com todos...
Veio uma sopa Tom Yam, o menu desta feita apresentava-se também em inglês, além dos gatafunhos banguecoquianos, e a Excelentíssima Esposa traduziu logo que era a sopa tailandesa, a perspicácia e a desenvoltura da Zulmira eram um espanto, tracinho sopa de camarão. A terrina não era exatamente um primor da Vista Alegra, antes semelhava forma para bolos ou pudins, com uma pequena chaminé ao centro.

A primeira colherada foi um desastre; porra!, era picante pra burro, como diria a Mara cabeleireira, importada diretamente de Tamanduá. Nem pensar. Chamaram a empregada e a dedicada consorte foi-lhe dizendo que tinha muita pimenta ou piripiri ou lá o que fosse. A jovem arqueou as sobrancelhas e não percebeu patavina. E a Zulmira, iu, misse, mademuázele, andersetande? Não andersetia. E foi um senhor, aliás muito bem-posto, de uma mesa ao lado que explicou à servidora o cerne da questão. Sorriso recatado e gentil, ela levou os pratos.

O excelso cavalheiro apresentou-se, ainda que não tivesse feito o mesmo em relação à dama que o acompanhava, mulheraça de perna cheia e decote até aos joelhos que, por acaso nem tinha ar de que fosse casada com ele, mas, para o caso não interessava. Para outros casos e outras ocasiões, fora do radar zulmiresco, haveria de interessar, mas, assim, nestes preparos, Janeca apenas podia apreciar a coxa dela tostadinha através de racha estratégica na saia. Se ela usasse sutiã, nem lhe teria sabido a marca, mas na verdade não trazia qualquer apêndice nas glândulas mamárias.

Tailandeso...
Era engenheiro de maquinaria pesada, o Figueiredo logo pensou que a acompanhante garbosa era mesmo da pesada, tinha o gabinete em São Pedro do Estoril, viera a um congresso e estava tudo explicado. Não, tudo não, a rapariga que os servia era um raparigo. Espanto, mas não parecia nada, elas e eles são pequeninos, jeitosinhos, informou o senhor engenheiro, mas aquele era mesmo um sucedâneo de macho, ressalvadas as aparências. E sempre acrescentou que as hospedeiras do avião da Thay podiam se perfeitamente hospedeiros transexuais. Ffffff, bufou o Figueiredo para quem homem era homem, mulher era mulher e ponto. E a Zulmira, vê lá o que dizes, esta gente pode entender os palavrões portugueses, modera-te. Ele apenas bufara, de desprezo, ficou-se pelo fffff.

No fim de uns pratos muito mais suaves, sófetes no dizer do da pesada, sobremesa, chá e uísque, oferta dele, uma noite daquelas era para recordar e comemorar; deixou-lhes o número do telemóvel de Portugal, despediu-se e seguiu maila acompanhante e ondulante. A Zulmira não se conteve, olha que ela é calmeirona, tu não te dás bem com as alturas, ao que ele não replicou, não parecia bem dar uma de peixeirada num restaurante – ainda que de peixe – tailandês em Macau.

Quando regressaram a Lisboa, a receita dos aero-soníferos q.b. surtiu uma vez mais o efeito desejado. Não devia haver alpinista, nem sequer montanhista, seja relevada ao escriba a falta de exatidão no concernente à terminologia, que tivessem, sequer, tentado resistir ao tratamento. Nestes casos que se prendem com as escaladas, o calado é o melhor. Ou seja, altitudes e atitudes.

domingo, 6 de maio de 2012

Antunes Ferreira - Cacilheiros do Tejo

.« No entanto, uma variável não mudou: na outra margem do Tejo continua a estar Almada, continua a estátua do Cristo Rei, cresceram os prédios de forma espantosa, as urbanizações foram perfeitamente ilegais, mas persiste em ser a Outra Banda. Para onde se atravessava nos cacilheiros, hoje ferry-boats e catamarans, porque atracavam em Cacilhas, onde se ia comer berbigão temperado com limão e coentros, para os mais remediados, e ameijoas à Bulhão Pato e camarão cozido, para quem tinha posses para essas gastronomias que incluíam ainda o mexilhão e as sardinhas assadas com batatas e salada de pimentos. Para não falar nas lagostas e nas santolas e nas ostras que, essas, só para a gente da alta. »
Henrique Antunes Ferreira

VIDAVIVIDA

Cacilheiros 
do Tejo
Na outra margem do Mandovi,
em frente a Pangim, está Porvorim,
antiga aldeia minúscula, que agora é a sede do Poder
político, com instalações próprias construídas
 para o efeito, entre as quais a Assembleia
 do Estado, edifício muito bem
 concebido, elegante e funcional

Antunes Ferreira
Do outro lado do rio fica Amada, fica o Cristo Rei que a encima. Da janela das traseiras do meu maxi-apartamento na Travessa do Ferreiro à Lapa, e tal como reza o desenho do meu primogénito Miguel no cabeçalho desta Travessa que é do Ferreira, via-se tudo, incluindo a ponte 25 de Abril, que já foi Salazar, mas que desde foi construída sempre era a Ponte Sobre o Tejo, ainda que houvesse mais umas quantas a montante. Mas, nada de especial. Esta era a verdadeira, a real, ainda não se falava em virtuais. As outras eram… peanuts, ou seja amendoins, pouca coisa.

Agora, aqui a caminho do Lumiar, deste que não é mini, mas é metade do outro, que tinha 336 metros quadrados, vê-se uma nesga do estádio mais lindo do Mundo, ou seja o Alvalade Século XXI, Estou muito satisfeito com a mudança – o velhote andar metia água por tudo o que era sítio, chegámos a ter entre baldes, bacias e tijelas de plástico, panelas, tachos e afins, 34 exemplares a apanhar a chuva que entrava por ali como se fora por coador de malha larga. Muito aguentámos dentro das paredes setecentistas. Mas, fizemos bem. A mudança foi excelente.

Na outra margem, continua o Cristo Rei
No entanto, uma variável não mudou: na outra margem do Tejo continua a estar Almada, continua a estátua do Cristo Rei, cresceram os prédios de forma espantosa, as urbanizações foram perfeitamente ilegais, mas persiste em ser a Outra Banda. Para onde se atravessava nos cacilheiros, hoje ferry-boats e catamarans, porque atracavam em Cacilhas, onde se ia comer berbigão temperado com limão e coentros, para os mais remediados, e ameijoas à Bulhão Pato e camarão cozido, para quem tinha posses para essas gastronomias que incluíam ainda o mexilhão e as sardinhas assadas com batatas e salada de pimentos. Para não falar nas lagostas e nas santolas e nas ostras que, essas, só para a gente da alta.

Pela estrada velha (hoje substituída por uma autoestrada a A2, que levou anos a ser construída às mijinhas até ao Algarve) ia-se a Setúbal manjar uns salmonetes na brasa de comer e chorar por mais. E lambujinhas. E uns bacalhaus assados no carvão com azeite frito com alho e outras vitualhas; comezainas que por vezes eram substituídas sob proposta do chefe de mesa, indiciado pela cozinheira, pelo cozido à portuguesa, ou a carne de porco à alentejana. Pratos de sustância. Mas, sobrevoando todos, a um nível de altitude que rondava o Everest, era a caldeirada à fragateira, feita com água do mar.

Recordo tudo isto com a saudade própria de quem começou nestas andanças aos cinco, seis anos, com os meus pais, irmãos, tios, tias, primos e primas diversas e mesmo um que outro adjacente, mais chamado pendura. Amigos dos adultos e, por vezes, aliás escassas, dos crianços que nós éramos. Não se trata de saudosismo bacoco, nunca fui de tais procedimentos a não ser quando iniciava uma carreira (que se antevia promissora) de fadista, já mesmo na Toca do Carlos Ramos, mas que o pai Henrique Ferreira cortou cerce, dando corpo à ordem severa da Dona Glória Ferreira, administradora caseira e arredores da Justiça na base da colher de pau.

Hoje, o santuário do Cristo Rei, restaurado e ampliado em 2002, é mais um ex-libris da outra margem do que desta de cá. Tem um início curioso que o irmana ao Cristo Redentor do Corcovado; ou melhor que o tenta copiar. Em poucas linhas: em 1934, o então cardeal patriarca Gonçalves Cerejeira – quiçá o maior amigo de Oliveira Salazar – em visita ao Rio de Janeiro depara-se com o monumento e logo decide que Lisboa terá um igual. Seguem-se inúmeras diligências, as duas guerras mundiais tinham originado os desastres consecutivos da Velha Europa. O Plano Marshall foi a alavanca da reconstrução de um continente mendicante.

Em Portugal, as peripécias sucedem-se, consolidando a ditadura salazarenta, e os bispos nacionais aprovam a construção do émulo lisboeta do Corcovado. Que, veja-se, seria construído em frente da capital. Coletas públicas, mesmo entre as crianças das escolas, foram fazendo avançar as obras. Conta-se até um episódio caricato que se diz ser verdadeiro. Quem sabe? O eclesiástico tesoureiro das ofertas terá fugido com o dinheiro para o Brasil. E como quem conta acrescenta um ponto, ali terá morrido num desastre de automóvel com duas mulatas a bordo… Não garanto.

Certo é que em 1959, por entre ventos e marés, o Cristo Rei de Almada é solenemente inaugurado; a Ponte Sobre o Tejo só será concluída em 1966. Entre os dois situa-se o Padrão dos Descobrimentos, de 1960 e só em 1993 surge o Centro Cultural de Belém, onde já existiam o mosteiro dos Jerónimos, 1516 e a Torre de Belém, de 1520. Este acervo riquíssimo, torna a zona uma das mais, senão mesmo a mais famosa da capital, só emulada pela Baixa lisboeta, obra do Marquês de Pombal, na reconstrução da cidade depois do grande terramoto de 1755, hoje considerado um verdadeiro tsunami.

O Esquimaux... fresquinho
Assisti à inauguração de umas quantas, não sendo, no entanto, suficientemente idoso, para referir a Torre de Belém, os Jerónimos, nem sequer a construção da Baixa. Os calendários, mesmo o gregoriano, pregam destas partidas e não há nada a fazer. Entretanto, recordo-me como se fosse hoje, do primeiro«Esquimaux» (que logo passaria a esquimó fesquinhoooo!) que comi no Jardim Zoológico ali à estrada de Benfica e da Dona Clélia, estimada professora da então quarta classe da instrução primária. Isto porque a Senhora mestra explicou depois queesquimaux eram os homens que comiam carne crua. Nos polos, os fogões deviam ser muito poucos, pensara eu.

Um aparte, um pequeno aditamento, se não se importarem. E se sim, é igual ao litro, escarrapacho-o aqui mesmo. Trata-se dos cacilheiros. Os barcos que de há muito faziam e ainda fazem a travessia do Tejo como atrás disse e com o terminal normal em Cacilhas. Já tiveram melhores dias, mesmo muito melhores, ainda que quotidianamente cruzem o rio nos dois sentidos para trazer e levar milhares e milhares de pessoas, sobretudo as que vivem na margem de lá e trabalham na capital.

Das coisas mais bonitas, no meu modesto entender, que se têm escrito sobre o Tejo, Lisboa e os cacilheiros é o fado criado por José Viana, um ator, pintor, encenador e mais coisas. Um verdadeiro homem dos sete ofícios, bem pode dizer-se. Porque assim o julgo, aqui o transcrevo:
Levei comigo no bote uma varina...

Quando eu era rapazote
levei comigo no bote
uma varina atrevida;
manobrei e gostei dela
e lá me atraquei a ela
p’ró resto da minha vida
Às vezes numa pessoa
a saudade não perdoa
faz bater o coração;
mas tenho grande vaidade
em viver a mocidade
dentro desta geração
Sou marinheiro
deste velho cacilheiro
dedicado companheiro
pequeno berço do povo;
e navegando
a idade vai chegando;
ai... o cabelo branqueando
mas o Tejo é sempre novo
Todos moram numa rua
a que chamam sempre sua
mas eu cá não os invejo;
o meu bairro é sobre as águas
que cantam as suas mágoas
e a minha rua é o Tejo
Certa noite de luar
vinha eu a navegar
e de pé junto da proa
eu vi ou então sonhei
que os braços do Cristo Rei
estavam a abraçar Lisboa…

Toda a panóplia enunciada pertence à banda de cá; à de lá – em Paris seria a Rive Gauche – serve-lhe de pendão o Cristo (copiado) Rei. Até o esquimó fresquinho nascido deste lado só depois, penso, mas não garanto, se terá passado para a outra margem usando um cacilheiro. Havia quem disse que tudo se podia passar a bordo de um deles. Apenas um exemplo, presumo que verdadeiro, dando fé à senhora Ângela, porteira do prédio em que os Ferreiras viviam.

Onde foi feito o Adolfinho
A menina Elvira era a criada lá de casa. Atualmente diz-se empregada doméstica, mas naquele tempo era assim.  A jovem sopeira, outra denominação desaparecida, ainda que a sopa esteja cada vez mais em uso, dada a crise e o correspondente cotão nas algibeiras, tinha um namorado, fatalmente um magala (nome que então se dava a um soldado), o Zeferino, o 2137/49 do Batalhão de Caçadores 5, ali a Campolide. Era o para clássico: o magala e a sopeira. Que, por vezes, iam até ao Ginjal, tasco ali à saída dos barcos em Cacilhas, depois promovido a restaurante, petiscar e beber uns copinhos.

Casaram, saindo a noiva lá da nossa casa, por entre choros de saudades incipientes, desejos de felicidades e uns trocados para o começo de vida, de vestido de noiva confecionado pela menina Manuela, costureira que dava os pontos com ou sem nós no nosso apartamento. Tiro e queda, batizado à vista, igreja de Fátima, registo civil, padrinho o meu Pai, e quando se efetuava a ata correspondente, à pergunta clássica – o menino Adolfo, nascido hoje para a vida eterna, é natural de?  – o Zeferino respondeu, impante: do cacilheiro Senhora da Glória. E a Elvira, cheia de leite materno e um tanto corada, ó homem, isso foi onde o Adolfinho foi feito.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Antunes Ferreira - O pó miraculoso


TERÇA-FEIRA, 1 DE MAIO DE 2012

DICA SIM, DIA NÃO

O pó miraculoso

Antunes Ferreira
Desce na estação do Campo Pequeno, o metro vinha cheio, olha que novidade, anda sempre, só faltam os funcionários que em Tóquio empurram à patada os passageiros que não conseguem embarcar. Aparentemente, os japoneses nem se queixam, de tão habituados ao tratamento, quiçá mesmo agradeçam pois assim não perdem a viagem, ainda que sigam enlatados, como as sardinhas, melhor do que entalados como o Martim Moniz.

Sobe as escadas, e enfrenta a rua com a animosidade de quem vem de uns 35º Celsius e apanha com uma chuva picuinhas fria. Na praia de Colva, antes com acento agudo no a final, a água do Índico ostentava uns gloriosos 28, roçando mesmo os 29. Centígrados como antes se dizia, e, apesar das recomendações para o correto ser o apelido do físico Sueco, ainda hoje se diz. Oceano que une a costa do Malabar à africana oriental, brinda quem nele se banha, por tais latitudes e que, de tanta gente, mais parece um caldo de carne. Sem intenções canibalescas, no caso presente, humana.

Agora e aqui, ainda por cima não traz o chapéu-de-chuva, fruto do desábito. Por lá, muitas senhoras usam instrumento igual, mas de sol, para que o astro não lhes creste mais a epiderme já de si morena. Arrisca-se a apanhar uma constipação, quem sabe até uma gripe ou, lagarto, lagarto, lagarto, uma pneumonia. Fora o caso da esposa amantíssima mas pessimistíssima, poderia mesmo chegar a uma bronco quiçá dupla. Pelo sim, pelo não, acoita-se a portal mais abonado, de prédio vigoroso, robusto, por certo de companhia de seguros. Não resiste ao trocadilho: este último, no singular, morreu de velho. Para não falar no político… E ri-se.

Quem o veja presumirá que deve usar auricular, por intermédio do qual lhe estão a contar uma anedota, talvez até maliciosa; por isso, arreganha a cepa, o que levará o adivinho a acreditar que o chiste será pornográfico, daqueles que no antigamente apenas se contavam a cavalheiros, mas hoje também a damas, assim às escâncaras. E vem-lhe à mente, de imediato, obluetooth, palavra que está na moda, mas cujo significado ele não sabe muito bem qual é, os netos é que a usam à mistura com um tal wireless.

Um sol tímido deita a língua de fora, por entre as nuvens acasteladas e cinzento escuras, ele sai do abrigo, na parede do prédio há umas quantas placas de consultórios médicos, de cabeleireiras, escritórios de Informática, mas não há nenhuma de seguradora que se preze, donde, enganou-se, o que se desculpa, pois não se considera nenhuma pitonisa.

Isto de impostos...
O Bairro Fiscal fica mais à frente, é para lá que se dirige, quer estar certo de que é o antepenúltimo dia para entregar o modelo qualquer coisa, do IRS, é cumpridor dos seus deveres desde os maritais aos fiscais, passando pela segurança social e pelas regras de civismo. Já quanto aos religiosos é melhor não reviver velhas questões, uma pessoa abandona o redil, descobre que não sente a falta dele, habitua-se a ouvir dizer que há sempre o momento em que as gentes caem em si e reconsideram; sobretudo lá pelas Goas – ele garante que há diversas e um tanto contraditórias – onde os católicos são mesmo católicos. Acaba de voltar de uma estada de vários meses, mais precisamente de princípios de outubro a finais de abril e precisa de colecionar os elementos que de lá enviou pelo correio que por avião sairia muito caro.

Ora Goa e outras Índias têm vida barata. Os salários são pequenos, os sindicatos deitam os corninhos de fora, como o caracol, mas ainda estão numa fase de apalpação dos poderes instituídos. Os preços também são diminutos, ainda que os haja upa, upa. Ele tentou perceber o que aconteceu nas eleições estaduais, ganhou um tal Parrikar, amigos explicaram-lhe os mecanismos e chegou à conclusão seguinte: quando conseguir entender o críquete, então conseguirá desvendar o processo eleitoral. Mas terá de partir do princípio de que a Índia é a maior Democracia do Mundo. Mais precisamente, é o maior país do Mundo em que há eleições livres e partidos diversos.

Coisa complicada...
Chega à Repartição das Finanças onde quase se sente como no metropolitano: um mar de gente, uns quantos fulanos sentados, aguardando que os chamem pelos altifalantes, outros em pé, um vozear muito para além dos decibéis mais aconselháveis, calem-se que assim não se ouve a chamada, cale-se você que isto não é o-da-joana, quem és tu para mandar, dar ordens, ameaçar, já basta o que basta para andarmos calados, terra de bananas. Tira a senha de chamada.

Nos balcões a velocidade no atendimento não é, de forma nenhuma,… veloz. Os requerentes começam por dizer desculpe-me estar a chateá-lo, mais frequentemente la, que a maioria dos funcionários é do sexo feminino, mas eu vinha pedir-lhe que me explicasse como é que, ó homem de Deus, está aí tudo escarrapachado no impresso, é só ler e proceder de acordo. Está instalado o sarilho. O senhor não devia ter pedido escusa inicial, o agente do Estado está ali para o atender, não faz favor nenhum, pagam-lhe para isso, o comentário é de uma senhora bojuda, qual boião de geleia real importada da China. A geleia, não a briosa cidadã.

Isto dá mais que tempo, vou lá fora comprar o jornal, diz ele para ele próprio. Porém voltou a chover e entre uma outra molha e o periódico, fica-se pela confusão do Fisco. E, de repente, sente-se em pleno mercado de Mapusa – tem piada, no tempo dos Portugueses era Mapuçá – que às sextas-feiras tem edição especial e ampliada, com os feirantes a multiplicarem-se quais pães e peixes miraculados.
... para limpar metais

A cena era extraordinária. Ele seguia a esposa que procurava - no meio daquela amálgama de gente, barracas, lojas, motos, vacas, motorizadas, fruta, riquexós, especiarias, scooters, pedintes, donas de casa, bicicletas, vendedores - um pó para limpar metais que lhe fora solicitado em Lisboa por pessoa amiga. De acordo com esta era um produto extraordinário que faz brilhar tudo, porém pensava ele que esse tudo não incluiria parafusos ou pregos, alumínios, ferros fundidos, ainda que estes fossem metálicos.  

E, de repente, uma senhora de sari colorido, mas com pouco ou quase nada de indiana, dirigira-se-lhes num português de acento inconfundível, sorriso amplo afixado na face, que era alentejana mas que vivia em Goa há mais de trinta anos, casada com um médico goês, que conhecera lá pelas nossas bandas, a quem dera filhos e até que, fora com ele a Timor por mor do serviço militar obrigatório. Um dia, haviam decidido sair de férias, tinham casa de família em Margão, ela, que nunca viera, a princípio franziu o cenho, cheirava mal o lixo que se acumulava por ruas e becos e travessas, depois habituou-se, achou que se estava bem, instalou-se, seja, instalaram-se.
Quantas especiarias 

Encontro providencial, já que a Senhora Dona Juliana conhecia perfeitamente o famoso ingrediente, havia um estaminé ali mais à frente, depois da «Loja da Luisinha», onde se podia adquiri-lo, ela ia lá com eles e, num ápice, tornaram-se possuidores de dez pacotes de 150 gramas cada um, cinco seriam para os amigos que o tinham pedido, com os outros cinco ficariam eles, face à garantia dada pela natural de Borba.

Está nisto quando por entre a densidade sonora da sala da Repartição de Finanças, ouve, nitidamente, a chamada do seu número, o 167, balcão B. Com licença, desculpe lá, fura a multidão, bom dia, e inquire a funcionária que do outro lado exibe um ar meio sofredor, meio chateado, se pode entregar aqui a declaração do IRS, é reformado, não percebe muito disso, o filho que lhe tratava dessas coisas estava desempregado e a conselho do primeiro-ministro emigrou para Angola, deixou-lhe a mulher e os dois netos.

O olhar carregado da senhora abranda, não é normal dizerem-me bom dia, gostei, mas, infelizmente, tem de fazer a declaração pela Internet, já não há papelada, está tudo no computador. Muito obrigado, mas ele não percebe nada de tais maquinetas, olhe, vá à sua junta de freguesia, lá eles ajudam, basta levar os documentos da receita e da despesa. Desanimado, aceita, despede-se com um muito obrigado e um resto de dia o melhor possível. O seu nome é Silva, João Rodrigues Silva, eletricista aposentado, se ela precisar de alguma coisa tem ali o número de telefone dele.
No final do dia a senhora vai preencher-lhe a declaração

Já se preparapara sair, levanta a gola do casaco, continua a chover, raio de tempo, Abril, águas mil, mas tanto não, quando ouve o seu nome. Volta-se, é a funcionária do balcão, ó senhor Silva chegue cá, se faz favor. Chega-se, e em voz baixa para os outros fregueses não ouvirem, a senhora diz-lhe para passar por lá no final do dia de trabalho, ela vai preencher-lhe a declaração e não se esqueça traga os recibos da farmácia e das consultas e as declarações de rendimentos. Dele e da esposa.

Um bom dia e um sorriso fizeram mais do que uma novena a Santa Filomena que, ao que parece, já foi desclassificada, já não consta da lista dos abençoados, mas que, mesmo assim ainda dá jeito invoca-la. Se fosse em Goa, o Deu boro dis diumtambém ajudaria, por certo, a resolver uma qualquer questão. E, obviamente, o sorriso, coisa que não falta por lá. Parara de chover, aproveita a aberta e entra na estação do Campo Pequeno.

Ali não há bom dia que valha. A lei da selva impera, conquistar um lugar na carruagem é uma forma de fintar a crise, pese embora o aumento dos preços dos bilhetes e dos passes e dessas traquitanas todas, As pessoas andam com ar fechado, preocupado, vencido. Pudera, não, com a vida como está, nem a ex- santa lhes vale. E se seguisse o caminho da Dona Juliana, mesmo sem ser alentejano? Nem de propósito, tinha de telefonar aos Mendes para os informar que tinha trazido o pó miraculoso.

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NE - O corrector automático está a levar-me a adoptar o novo Acordo. Como concordo com o documento, acho uma excelente ideia. Assim, safo-me