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E como a propósito da tua Rua das Bruxas, já se falaram das ditas, bem como de ninfas, tágides e afins, aqui te deixo a minha sereia. Agora cabe-te adivinhar-lhe a cor dos olhos.
Cântico de sereia
Se as frases são de encantos e magias,
não deixes de as dizer.
Conta-me a história dos murmúrios sussurrados,
vertidos no orvalho matinal,
lambidos na gota de suor.
O sal que me perfuma
traz as gaivotas até á minha pele.
Tanta salmoura é mar, é lágrima, é sémen de uma nova vida.
Abro-me em flor.
Carnuda.
Prenhe de desejo.
Sei ser um corpo ao vento
fustigada na ciclópica tempestade.
Não vergo mais.
Junco flexível.
Alma elástica em torvelinho.
Trauma pré-concebido.
E a tua voz é quente e abrasadora!
Bálsamo refrescante na minha alma,
ácido corrosivo no meu eu.
Dissolvo-me na contradição.
Mas essas frases inundantes,
deixam-me num porto á tua espera,
figurinha recortada em mítico horizonte.
Persigo sonhos mas o sono brinca com as horas
fá-las escorregar numa fiada de pérolas,
nacaradas, lisas, frescas na minha pele sedenta.
Se desfraldo essa vela,
rumo a um mar profundo.
Levo comigo a faca serrilhada,
desenhando runas ancestrais dentro de mim.
Sinto-lhe a ponta fria e metálica
mas abro-lhe os braços.
Cedo á carícia perfurante,
cega por uma dor que me tortura.
Aventuro-me sabendo-me por certo sem regresso.
Mas as sereias trazem as frases encantadas
e se as quiser beber...
não posso recusar a embriaguez.
Provo o teu elixir,
ambrósia divinal.
E espero-te na noite sem memória.
Oferto-te o imaginário
sabendo que nos olhamos de diferentes cais.
Mas se as frases são de encantos e magias,
não deixes de as dizer.
Margarida Piloto Garcia
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