terça-feira, 3 de setembro de 2013

Ana Wiesenberger - Quero trazer a poesia para a rua

Quero trazer a poesia para a rua
Vê-la descalça a pisar
A terra e as pedras
Sem medo de assumir
A sujidade dos dias

Quero poemas com cheiro e ruído
Que nos acompanhem pela casa
Sem pejo de ir à casa de banho
Quando é preciso

Quero as palavras fumegantes
Directamente recebidas dos tachos e das panelas
Ao lume
Com sons de óleo a crepitar na frigideira
E do molho que o esquecimento
Já queimou

Quero as letras desossadas e indecisas
A agruparem-se umas com as outras
Num acaso feito de desperdício
No balde do lixo

Quero servi-las à mesa do desconforto
Do fim do dia
E regar-lhes o cansaço
Com bom vinho

Quero acariciá-las, já desfeitas
Na cinza do cinzeiro
E depois, levá-las para a cama do desejo
E transformá-las em almofadas fofas de sonhos

E quando acordar de noite
Sobressaltada pelos pesadelos
Quero que elas me abracem
E me renovem
O sentir da realidade

E quando o meu dia de partida
Chegar
Amortalhem-me com folhas de dicionário
E abecedários lúdicos, desses que se compram
Para as crianças
Quero continuar a brincar com as palavras
No jardim do Além
E, talvez, eu até convença Deus
A tornar-se um poeta


Ana Wiesenberger (in Dias Incompletos)

Foto: Quero trazer a poesia para a rua
Vê-la descalça a pisar 
A terra e as pedras
Sem medo de assumir
A sujidade dos dias

Quero poemas com cheiro e ruído
Que nos acompanhem pela casa
Sem pejo de ir à casa de banho
Quando é preciso

Quero as palavras fumegantes
Directamente recebidas dos tachos e das panelas
Ao lume
Com sons de óleo a crepitar na frigideira
E do molho que o esquecimento
Já queimou

Quero as letras desossadas e indecisas
A agruparem-se umas com as outras
Num acaso feito de desperdício
No balde do lixo

Quero servi-las à mesa do desconforto
Do fim do dia
E regar-lhes o cansaço
Com bom vinho

Quero acariciá-las, já desfeitas
Na cinza do cinzeiro
E depois, levá-las para a cama do desejo
E transformá-las em almofadas fofas de sonhos

E quando acordar de noite
Sobressaltada pelos pesadelos
Quero que elas me abracem
E me renovem
O sentir da realidade

E quando o meu dia de partida 
Chegar
Amortalhem-me com folhas de dicionário
E abecedários lúdicos, desses que se compram
Para as crianças
Quero continuar a brincar com as palavras
No jardim do Além
E, talvez, eu até convença Deus
A tornar-se um poeta


Ana Wiesenberger (in Dias Incompletos)

Imagem - Alexandr Dolgikh
Imagem - Alexandr Dolgikh 
 



Victor Nogueira o fogo e a cor das palavras, azuis ou em labareda ! Bjos, Ana Wiesenberger

Sem comentários:

Enviar um comentário

Ao Sabor do Olhar seja bem vindo quem por bem vier. Colabora, participa, comenta! Este Espaço é mais Vosso do que meu :-)