sexta-feira, 20 de abril de 2012

João Carlos Esteves - Engrenagem


ENGRENAGEM
(ou uma face da depressão)


Num repente, acontece.

Um tropeção na engrenagem
e inicia-se o bailado
numa profusão de passos espiralados
ao sabor da determinística queda

Partem-se os metafóricos queixos
no embate violento com as inesperadas surpresas
do outro lado do espelho

De espírito embotado
a vontade anestesiada navega nessa realidade irreal
de onde não há fuga
nem há portas para abrir

O universo é uma ombreira sem porta
sem passagem, sem miragem,
um limbo sem cor
onde escurece até tudo ficar em ânsias de luz

As sinapses já não reagem,
as memórias cristalizam-se no antes
a pairar no esquecimento

Perdeu-se o encaixe no puzzle,
o lugar na engrenagem
o indizível pedaço de pertença

Aqui, és limbo.
Aqui, não és.


JCE 04/2011
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