segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

UM VASO DE FLORES - Clara Roque Esteves

Para ser homem
Enrolei sílabas clandestinas
Embandeirei sonhos em sobressalto
Entrincheirei o vento na raiz do sangue
Semeei a semente derradeira
E não encontrei pétalas.
Abri cada minuto do meu tempo
Ocultando palavras em campos minados
E desocupei silêncios sem disfarce de temor.

Para ser homem
Esventrei savanas numa geografia de luta
Esfumei... revoltas em bares
Num gesto escravo de emaranhadas teias.
Adiei a vida vezes sem conta
Instalei residência em terras de chamas
E com os pés nus,
Na esperança de descobrir mistérios indecifráveis,
Entre a esperança e o desejo
Fui escavando o carvão da resistência.

Um dia, aproximei-me
E num minuto sem sabor a nada,
Num idioma de rosto ferido
Ficámos olhos nos olhos
Separados por um vaso de flores.

Era a hora dos sonhos enlutados
A escorrer de um sonho de menina
A morte encarava os corredores do infinito.
Num vaso de flores encontrei a dimensão da Vida
Tapei o firmamento da minha pátria
Encostei-me a um luar sem luz
E acrescentei o meu desassossego
Antes que a escuridão me avassalasse.

As flores não murcharam no vaso
E do seu rosto não saiu a minha madrugada
Mas descobri que a morte também beija
E que ser homem cava séculos de silêncios e de cinzas..

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RECANTO DA POESIA EM VERSO E PROSA
Grupo fechado
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